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Não precisamos mais de storytelling em sustentabilidade, mas storydoing! Clara Silva é consultora de sustentabilidade e fala-nos sobre os desafios nesta área.

A Clara Silva é consultora de sustentabilidade, o que a motivou enveredar nessa área? 

Quero ser Bióloga! Foi sempre a minha convicta resposta quando me perguntavam em criança, que profissão queria escolher.

Durante o meu percurso académico e início da etapa profissional, aumentei as minhas qualificações, tirando o mestrado em biologia da conservação, colaborei em projetos de investigação, publiquei artigos científicos, trabalhei em estudos de impacte ambiental e projetos de educação ambiental. 

Contudo entre 2012 e 2015 os tempos de crise nacional instalaram-se e havia, o que eu poderei chamar de “bio blockers”, tais como a precariedade salarial e fragilidade das bolsas de investigação, a falta de coesas oportunidades e vínculos profissionais em empresas e instituições, para uma profissão que, além de suscitar paixão e curiosidade, ainda tinha uma importância estigmatizada junto de muitos empregadores.

 Assim, a minha insatisfação fez com que procurasse novas perspetivas laborais e em 2015 foi o “turning point”.

Empreender com a Biologia e tirar o melhor partido dela, foi o caminho. Prospectivamente percebi que a minha profissão poderia renascer como uma aliada fundamental sob a lógica do desenvolvimento sustentável. Afirmar e transmutar a minha profissão naquilo que poderia ser o mindset de atuação no que remete à Sustentabilidade, à proteção da biodiversidade e corporativamente à boa Governance. Avançar disruptivamente e usar esta ciência, criando fluidas e prósperas sinergias em múltiplas possibilidades de atuação

Sendo assim, tirei a pós-graduação em Gestão de Sustentabilidade no ISEG e entrei de imediato no mundo da consultoria. Biologia e Sustentabilidade…, foi um “connect the dots

Teria sido uma visão ousada ou necessária? Felizmente hoje percebo que foi uma visão ousadamente necessária. 

O ano de 2020, permitiu resgatar o tão esperado “despertar” para a conservação da natureza, com a a Agenda 2030, a Estratégia internacional para a Biodiversidade 2030, o Pacto Ecológico Europeu,  o Act 4 Nature, com a importância da implementação das Nature Based Solutions ou integração do capital natural na gestão (isto biologicamente falando). Finalmente percebe-se que Business & Biodiversity não são mais estranhos inacessíveis, mas parceiros indispensáveis para a prosperidade das empresas, da natureza e do planeta.

As crises são cíclicas, permitem-nos reinventar, empreender. A habilidade em lidar com múltiplas demandas em consultoria é um requerimento fundamental e muito estimulante. É atentar-se às oportunidades certas! E é essa paixão e entusiasmo, o combustível que me move nesta profissão.

 

Quais os maiores desafios de educar e formar para que as pessoas adotem comportamentos sustentáveis? 

O impulso para a sustentabilidade nunca foi tão forte. As questões globais como as mudanças climáticas, a proteção da biodiversidade, a economia circular, as grandes temáticas de ordem social, estão umbilicalmente ligadas ao nosso quotidiano, todos os dias ouvimos falar delas, contudo também exigem urgentemente mudanças no nosso estilo de vida e consequentemente uma transformação na forma como pensamos e agimos. Agora sabemos que, para garantir esse “Shift”, precisamos de novas skills, valores e atitudes, que levem a uma sociedade mais sustentável e isso faz-se, sem dúvida, através de um forte investimento na formação e sensibilização de todas as faixas etárias.

Pela minha experiência de formação percebo que existe determinação das instituições de ensino, dos centros de gestão participada, de particulares, em seguir este caminho, mas em alguns casos o mesmo ainda espelha pouca direção, reconhecimento do real valor acrescentando, muito aliado à falta de khowhow para estes temas, diria até foco! 

Os sistemas de educação, sobretudo pela sua génese, deverão ser prioritários a responder a esta necessidade premente, definindo objetivos de aprendizagem relevantes e conteúdos de aprendizagem sólidos e transversais, introduzindo sobretudo pedagogias mais disruptivas e facilitadoras, que capacitem e principalmente motivem os alunos a serem agentes de mudança, a tomar as rédeas do futuro, e consequentemente as instituições de ensino, deverão seguir o passo, incluindo princípios de sustentabilidade na sua estrutura de gestão. 

Creio que ainda estamos longe de tornar sólida esta meta educativa.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável reflete claramente esta visão da importância de uma educação com uma resposta mais adequada, criativa e diria até ousada. Tem sido um gatilho muito apelativo pela plasticidade como podemos educar e formar através dos seus conteúdos.

Todavia, percebo que as dificuldades não surgem apenas num alinhamento “top down” do sistema de ensino, também professores, jovens e o público adulto em geral com que me tenho deparado ao longo dos anos, apresentam ainda algumas resistências.

Os professores, identificam a importância deste compromisso, mas ainda não possuem as ferramentas necessárias para o catapultar dentro das suas disciplinas e aplicar em projetos extra-curriculares, pela falta de uma orientação e conhecimento mais sólido que muitas vezes também acaba por ser adulterado pelo excesso de funções burocráticas.

Os jovens, com saída para o mercado de trabalho, absorvem conteúdos, questionam, até mostram poder de ação, mas em alguns casos, acabam derrotados por uma desmotivação global face à importância que os seus comportamentos podem ter, na inversão do cataclismo planetário que se deparam em noticias, números e resultados de conferências.

O público em geral, é recetivo a estes temas, atento, geracionalmente preocupado, contudo, dada a sua literacia e faixa etária, ainda revelam algumas crenças no seu resultado a curto-prazo, no velho grilhão do lucro e na terceirização da responsabilidade para o Estado e líderes mundiais.

A educação é uma meta em si mesma, um facilitador e um meio para atingir a mudança pretendida. É um desafio gradual, bem sabemos, mas também o core de atuação vital nestes temas (ODS 4). Contudo estou confiante de que, passo a passo, saberemos desconstruir crenças, ultrapassar dogmas e desenvolver as tão esperadas competências e comportamentos sustentáveis, quando percebermos que o que fizermos individualmente é tão importante e valioso, que terá repercussões no coletivo.

Qual considera ser a área com maior necessidade de informação relativamente a práticas mais ecológicas? 

Pela análise dos diferentes setores e no que respeita à demanda de pedidos de colaboração para o desenvolvimento de projetos, quer a nível ambiental, quer para a construção de uma estratégia de sustentabilidade consolidada ao seu modus operandi, diria, não uma, mas 3 áreas, onde cito a logística, IT e o setor da construção civil, como os mais lentos no vislumbrar da necessidade de mudança e consequente adoção de práticas societais mais responsáveis.

O caminho tem sido lento, mas gradualmente positivo. Creio que consultores, ONG’s, biólogos e restante comunidade científica, assumirão um legado cada vez mais relevante no que reporta à disseminação da literacia para a proteção da biodiversidade, mostrando que a ecologia e conservação da natureza trazem benefícios à sociedade e, portanto, é da responsabilidade da sociedade valorizar o capital natural que direta ou indiretamente dela faz parte.

 

Trabalhou na Sair da Casca, a 1ª empresa em Portugal de consultoria em responsabilidade social/sustentabilidade, quais os projetos que mais destaca quando lá trabalhou? 

A Sair da Casca foi sempre uma referência profissional para mim, que felizmente se materializou em colaboração durante um ano e meio.

Na consultora foi possível abraçar diferentes desafios ao nível da atuação em sustentabilidade corporativa, reporting ou impacto, contudo foi na gestão de projetos de estratégia de responsabilidade social e sustentabilidade, consulta de stakeholders, materialidade, posicionamento em compromissos com os ODS e criação de planos de ação, que mais me revi enquanto profissional. Foi deveras estimulante prestar serviços de consultoria para empresas e organizações de referência no mercado, em setores tão dispares como o crédito ao consumo, retalho, indústria ou mobilidade, impulsionando igualmente para o fomento de uma cultura de sustentabilidade que atuasse em todo o ecossistema empresarial, salvaguardando as necessidades e expectativas de todas as partes interessadas. 

Foi uma missão apaixonante, pelo desbravar do universo empresarial, pelo contacto com pessoas de diferentes categorias e ações profissionais, pela constante partilha e aprendizagem. 

Ainda que com um roadmap de atuação semelhante, cada projeto era único, trazendo surpresas, no seu desenrolar, missão e propósito. Grata por esta oportunidade, que me permite continuar a construir caminho e a abraçar novos desafios na sustentabilidade.

Organizou o primeiro ciclo de conversas sobre sustentabilidade no turismo. Fale-nos um pouco sobre essa iniciativa. 

A parceria com o Turismo de Portugal, felizmente já toma lugar desde há 5 anos a esta parte. 

Iniciei funções no âmbito da formação em iniciativa empresarial e empreendedorismo na ESHT Estoril, sendo que nos últimos 3 anos apenas colaboro com a sede, em Lisboa e a EHT de Setúbal, ao nível da sustentabilidade no turismo.

Dado o embate socioeconómico que o surto pandémico teve no setor, a estratégia de sustentabilidade 20-23 planeada pela entidade reguladora, só se torna tangível e positivamente mensurável com uma atuação mais incisiva, transversal e disruptiva ao nível da sustentabilidade. 

Desta forma, no ano transato, foi criado um programa de formação a nível nacional, o Upgrade Sustentabilidade, no qual tive o prazer de participar como membro do concelho consultivo da task force de criação dos conteúdos programáticos para o mesmo. Ministrei formação tanto ao público em geral como aos formadores das 12 escolas nacionais. Felizmente o programa foi um sucesso, tomando lugar numa versão 2.0. a iniciar já em janeiro de 2022, onde fui convidada para a revisão de conteúdos e integração de renovadas iniciativas.

Contudo a atuação também deve tomar lugar a uma escala mais local e nesse âmbito, tomei a ação de propor à EHT de Setúbal a possibilidade de realização de ciclos de conversas sobre sustentabilidade que fomentassem, não somente o reforço de parcerias entre a escola e os diferentes players do território (hotéis, ONG’s, Start up’s de turismo natureza, investigadores em programa doutoral, entre outros), motivando os jovens finalistas e futuros colaboradores e empresários, à mudança de comportamento, através do “learning by sharing”, como igualmente catalisasse a possibilidade de novo sinergias, com iniciação de projetos, tanto de interesse para a comunidade escolar, como para as comunidades intermunicipais. A iniciativa foi um sucesso e já se pensa numa projeção quadrimestral.

Através de uma auscultação de necessidades do mercado, a EHT de Setúbal, irá enveredar por um projeto a 3 anos, ministrando ações de formação em sustentabilidade, ajustadas aos desígnios societais, tanto dos municípios da sua matriz territorial, como de empresas que contemplem os mesmos, tendo sido mais uma vez convidada para as executar, ou seja, o que perspetivei com a palestra, está a dar frutos.

De forma simultânea e coincidente, também tive o prazer e a honra de participar como project manager da conferência internacional do BCSD Portugal: Sustentabilidade – Desafios da década 20-30.

O que considera que ainda falta fazer em Portugal ao nível da sustentabilidade?

O ano de 2021 foi um ano de grandes decisões mundiais. Portugal encontra-se no mesmo patamar de compromisso ao nível do “fazer acontecer”, do aumentar o nosso footprint, nesta que é a derradeira década de atuação para a sustentabilidade.

Esta responsabilidade é holística, de todos e para todos e há que se estar socialmente preparado para o futuro, contudo, diria que, quer pelo seu nível de importância desde a génese até à atuação no coletivo, quer pela forma como é tão relevante educar, preparar e inspirar as pessoas pelo exemplo, daria mais peso e foco, ao ensino e às empresas.

Ao ensino, porque é cada vez mais premente acelerar e disciplinar o tema da sustentabilidade, não como uma imposição académica, mas como uma espontânea aprendizagem ao longo da vida, enraizando num novo e intrínseco modo de estar. A pandemia veio forçar a esta mudança de paradigma escolar. Há que aproveitar a oportunidade. Mas para tal será necessário um novo formato educativo, mais criativo, empreendedor, com experiências mais imersivas, usando uma parceria única com ferramentas mais digitais, e claro, que inclua o resgate de novas skills (green e social skills). Um formato de ensino top down que venha determinar a importância dada à empatia, à capacidade de problem solving, que prepare os futuros cidadãos adultos, a enveredar por atitudes e comportamentos ambientalmente responsáveis e sobretudo que os prepare para o surgimento de cenários imprevisíveis, com capacidade de criar novas oportunidades e boas decisões e perceber como essas interações poderão afetar os desafios da sustentabilidade e boa governance.

Os cidadãos de futuro, farão as empresas de futuro. Aquelas que darão passos inspiradores voltados para o amanhã, envolvendo-se em deveres e oportunidades alinhados às necessidades urgentes do planeta e das pessoas. 

Diria que é necessário que as empresas se reconheçam todos os dias: Qual a minha identidade corporativa? Como entregar um propósito numa gama de prioridades ESG e como o pretendo defender? Como posso tornar real um modelo de negócio mais responsável, secundarizando o lucro? Como posso abraçar trade-offs desafiadores?

Há que definitivamente assumir um novo skillset para enfrentar os desafios globais e mobilizar diversos ecossistemas de players a perseguir estes objetivos, com mais soluções em parceria. Junto somos mais fortes! As pessoas gravitam e alinham-se mais facilmente em torno de empresas com soluções mais credíveis, com mais impacto no mundo e as iniciativas de sustentabilidade corporativa continuam a ser uma alavanca poderosa de competitividade e resiliência.

Não precisamos mais de storytelling em sustentabilidade, mas storydoing!

Clara Silva

Com a biologia e conservação da biodiversidade na sua bagagem académica, a Clara dedicou uma década do seu percurso profissional à gestão e comunicação de projetos ambientais e de investigação científica.

Uma nova consciência, visão prospetiva e um gosto aguçado por novos desafios, levam-na em 2016 a um ponto de inflexão, aliando os conhecimentos adquiridos, à sustentabilidade, trabalhando, até hoje, na consultoria ao nível da gestão de projetos e advisory em desenvolvimento sustentável, em contexto empresarial e estatal.

Sendo uma militante assumida destes temas, possui uma vasta experiência formativa com diferentes públicos e entidades, tendo também sido oradora e organizadora convidada, para várias conferências e seminários de âmbito nacional e internacional.

Reconhecida como uma entusiasta pela mobilização e capacitação do capital humano, desde 2017 que abraça projetos de coaching vocacional, formação de soft skills, criação de metodologias de ideação como o design thinking, creative problem solving e empreendedorismo, em ambiente corporativo, institucional e escolar.

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