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estratégia da sustentabilidade

Sónia Pereira da Silva está na génese da Estratégia da Sustentabilidade da Santa Casa da Misericórdia, após vários anos a trabalhar em comunicação. Conhece o seu percurso e o trabalho que está a ser desenvolvido na Unidade de Sustentabilidade da Santa Casa.

Com formação em Comunicação, Relações Públicas e Jornalismo, e uma larga experiência em departamentos de Comunicação, como chega o desafio da Sustentabilidade? 

Diria que foi um encontro feliz e oportuno e para o qual contribuíram muito as pessoas que fui encontrando na minha vida profissional, e espero, a confiança no meu trabalho. Quando entrei na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no já longínquo final de 2009, o meu trabalho passou a focar-se nas áreas da assessoria técnica e da responsabilidade social. Em 2012, a Administração lançou ao departamento o desafio de desenvolver uma estratégia institucional para a sustentabilidade, e a história começou formalmente aí, com a minha integração nessa pequena equipa fundadora e, desde 2013, a dirigir a Unidade de Sustentabilidade.

 

Para uma profissional com vasta experiência em Comunicação, quais são os maiores desafios na transição para o planeamento estratégico de uma área de Sustentabilidade e Responsabilidade Social? Que conselhos dá a quem tenha a ambição de trabalhar em sustentabilidade? 

A sustentabilidade na Santa Casa, trabalhada numa perspetiva transversal, é algo muito recente na vida da instituição. Só para dar uma ideia, comemoramos este ano 523 anos de atividade.

Como área nova, um desafio foi, desde logo, afirmar-se e mostrar-se como relevante para o modelo e práticas de gestão. Esse facto, somado à diversidade das áreas de intervenção da Casa, que vão desde a ação social e a saúde, à gestão de património imobiliário e à exploração dos jogos sociais, só para citar algumas, e à especificidade e complexidade das atividades de cada uma, tornou muito desafiante conseguir-se fazer um planeamento estratégico e transversal, definindo objetivos e metas comuns para os quais todos os serviços contribuam.

É um caminho que sempre encarámos como uma maratona, às vezes com passos atrás, e nunca como uma corrida curta. Talvez por isso, o primeiro conselho que daria a quem tenha a vontade de trabalhar em sustentabilidade, seria a de fortalecer a sua resiliência, porque vai precisar de recorrer a ela muitas vezes.

Muito do trabalho em sustentabilidade não tem resultados imediatos e visíveis (afinal, trabalhamos em prol das gerações futuras e de um planeta melhor), e por isso, pode haver alguma dificuldade em fazerem-se passar mensagens e em evidenciar os benefícios de certos investimentos.

É preciso não desistir, arranjar formas mais criativas de mostrar a relevância das propostas e trabalhar sempre numa perspetiva colaborativa.

 

Como é o dia-a-dia de uma diretora de Sustentabilidade e Inovação? Quais as principais tarefas, metas e KPIs? 

A pandemia COVID-19 e o teletrabalho trouxeram novos desafios à gestão de equipas, mas uma coisa que posso desde já dizer sobre o meu dia-a-dia é que nunca é monótono.

A nossa Unidade de Sustentabilidade tem duas grandes áreas de competência:

  • Responsabilidade Social
  • Gestão Ambiental

Cada uma delas trabalhando múltiplos temas, e em simultâneo, e pessoas com vários perfis.

Sinto-me privilegiada por trabalhar com uma equipa tão diversa e multidisciplinar, com quem tenho aprendido tanto, e pela abertura que tenho sentido da parte das minhas chefias em relação à apresentação de novas propostas e ideias. Nem todas saem do papel, e em alguns casos ainda bem, mas essa liberdade tem sido um grande motor de promoção da nossa criatividade e resiliência.

Trabalhar numa área como a sustentabilidade, em que tantas matérias, sociais, ambientais, éticas, económicas, estão interligadas, no plano mais prático da gestão diária, obriga por vezes a uma certa «dança» entre assuntos e projetos, mas é algo que me agrada.

Num momento estou a falar com uma pessoa da equipa sobre ações na área da diversidade e inclusão ou a colaborar na preparação de uma iniciativa de responsabilidade social, e no momento a seguir a responder a e-mails relacionados com a recolha de resíduos, ou a analisar indicadores de eficiência energética e hídrica.

Neste momento, a nossa grande prioridade transversal é a elaboração do Relatório de Sustentabilidade 2020 e quase toda a equipa está envolvida nesse projeto conjunto da sua preparação, desde a recolha e sistematização dos dados ambientais, à reunião dos contributos dos outros serviços, à elaboração do texto, mas ao mesmo tempo cada um desenvolvendo outras ações nas suas áreas de trabalho.

estratégia da sustentabilidade na santa casa da misericórdia de lisboa

 

Antes de trabalhar na Estratégia de Sustentabilidade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que viria a dar origem à Área de Sustentabilidade e Inovação, participou num projeto de Responsabilidade Social, o REPARAR.

Pode falar-nos um pouco sobre este projeto e a importância dele para si e para a SCML? 

A REPARAR foi um projeto de responsabilidade social que ajudei a criar em 2011 e pelo qual, mesmo depois destes anos todos, mantenho um carinho muito especial.

Basicamente, consistia em realizar campanhas de obras de reparação interior em casas de pessoas idosas carenciadas apoiadas pela área de ação social da Santa Casa com o objetivo de melhorar a sua qualidade de vida e de segurança doméstica.

As reparações eram custeadas por empresas que aderiam ao projeto e feitas por equipas de colaboradores seus em regime de voluntariado ao longo de um dia, depois de um trabalho de preparação por uma empresa de construção civil.

Era um projeto muito trabalhoso, porque a campanha de intervenções nas casas, cerca de 30 em cada edição, era realizada num prazo de 2 meses, com várias habitações a serem intervencionadas em simultâneo, mas extremamente envolvente e gratificante. O impacto na vida das pessoas idosas que beneficiou era imediato e visível.

Falo de coisas às vezes tão simples como substituir banheiras por bases de duche, eliminar desníveis entre divisões, reparar humidades, substituir candeeiros ou pintar paredes, mas que aquelas pessoas não tinham nem meios económicos nem desembaraço para contratarem.

Foi um projeto muito importante para mim e marcou o meu despertar para os temas da responsabilidade social e da sustentabilidade, em todas as dimensões. Como seja o da necessidade de se criarem cidades e comunidades sustentáveis, inclusivas e acessíveis, um desígnio totalmente alinhado com a missão social da Santa Casa.

 

Numa instituição da dimensão da SCML, e com o tipo de atividade que tem, as questões ambientais, nomeadamente de eletricidade, água e resíduos, são um desafio para gerir.

Que estratégias têm implementado e que resultados têm obtido? 

São efetivamente um desafio, acrescido pelo volume e diversidade da nossa atividade, mas também pela heterogeneidade dos nossos edifícios e do tipo de utilização.

Temos enfrentado esse desafio definindo e aplicando medidas transversais, para um maior alcance e impacto.

Na eletricidade, além de definirmos requisitos de sustentabilidade para o fornecimento de energia elétrica nos concursos públicos, temos investido em medidas de mitigação de energia reativa, na substituição de iluminação e no investimento em sistemas de produção de energia renovável, além da comunicação e sensibilização interna.

Na água, destacaria sobretudo a nossa adesão ao sistema Waterbeep da EPAL, que é o nosso maior fornecedor de água, que nos tem permitido monitorizar os consumos e controlar fugas de água em todos os edifícios localizados em Lisboa. Só em 2019, através desta monitorização, que é diária, e de uma atuação mais célere para controlo dos consumos atípicos, conseguimos evitar custos adicionais na ordem dos 60 mil euros e o desperdício de mais de 20 milhões de litros de água.

Em relação à gestão dos resíduos, depois de um longo trabalho de identificação de todos os tipos de resíduos produzidos e de montagem de um sistema de gestão interna e com operadores de resíduos, o nosso maior foco atual e futuro será na prevenção da produção de resíduos, que é o mais difícil de conseguir, no seu encaminhamento preferencial para destinos de reciclagem e valorização, e na identificação de formas alternativas do seu encaminhamento, procurando soluções que sigam os princípios da economia circular. 

 

Como definem os indicadores a serem melhorados e como realizam o controlo deles?

Quando começámos a trabalhar na sustentabilidade e definir uma estratégia, fizemos um grande trabalho de auscultação interna e de diagnóstico. Foi uma etapa fundamental para estabelecer o ponto zero e decidir os passos seguintes.

Na altura, os indicadores que obtivemos permitiram-nos perceber, por exemplo, que a área ambiental, e em particular a área de gestão de resíduos, carecia de uma intervenção profunda e centralizada. Essa tornou-se uma das nossas prioridades e orgulha-me olhar par trás e ver o percurso que já percorremos. 

Mas, de diferentes formas, seja via o estabelecimento de parcerias e trabalho conjunto com outras organizações de referência na área da sustentabilidade, seja através dos referenciais que seguimos, como o Global Reporting Initiative, e dos próprios processos de gestão de partes interessadas, temos sempre procurado fazer diagnósticos periódicos e a aferir quais são as nossas necessidades de intervenção ou onde existem oportunidades de melhoria.

Os indicadores são definidos em conjunto com outros serviços, nomeadamente o responsável pela estratégia e planeamento global, e são incorporados, sempre que possível e aplicável, no ciclo de gestão, com um plano de ação e de monitorização. 

 

estratégia da sustentabilidade - sónia pereira da silva

 

O apoio à comunidade é sobejamente reconhecido à SCML, mas especificamente na área da sustentabilidade entregaram 4,5 milhões de euros em apoios e subsídios a boas causas de outras entidades.

Pode falar-nos um pouco sobre estes apoios? 

A Santa Casa tem uma grande tradição de apoios a boas causas. Mais do que ser resultante de uma estratégia de sustentabilidade e responsabilidade corporativa, é algo que está intrinsecamente ligado à sua missão e fins estatutários.

Apoiar outras organizações e projetos e ações afins ou complementares às nossas atividades, é uma forma de amplificarmos o alcance do nosso trabalho e de contribuirmos para o fortalecimento do ecossistema de organizações sociais e da sociedade civil.

Um exemplo desses apoios é o Fundo Rainha D. Leonor, através dos quais apoiamos financeiramente outras misericórdias do país a conseguirem concretizar os seus projetos de reabilitação ou criação de novos equipamentos sociais, garantindo que conseguem dar uma melhor e maior resposta às populações que servem.

Outros são os Prémios Santa Casa Neurociências, criados em 2012 e que têm contribuído para promover a investigação científica nacional na área das biociências, e as iniciativas de apoio ao empreendedorismo.

 

Que tipo de cuidados têm definidos para os vossos colaboradores e que importância têm estas ações num Plano de Sustentabilidade? 

Há um conjunto muito significativo de benefícios destinados aos colaboradores, sejam ativos ou reformados, ampliados ao longo dos últimos anos, sendo que em alguns casos abrangem também os seus familiares, nomeadamente os filhos.

Dois dos apoios mais recentes que posso citar são o seguro de saúde, que foi atribuído a todos os colaboradores efetivos, e a disponibilização de consultas de psicologia. 

Somos cerca de 6000 trabalhadores, uma significativa parte dos quais com contacto direto diário com clientes e utentes, nomeadamente nos equipamentos sociais e de saúde. Por isso, assegurar a segurança e o seu bem-estar e promover a sua contínua valorização são eixos fundamentais da nossa sustentabilidade que reforçaremos sempre.

 

Para empresas que pretendem iniciar, ou iniciaram, um caminho mais sustentável, um dos desafios é o controlo dos fornecedores. Sendo esta uma área de competência do Departamento liderado pela Sónia na SCML, que exemplos pode apresentar da vossa atuação? 

A Santa Casa está vinculada ao Código dos Contratos Públicos, que sendo um referencial legal, define regras para todas as etapas da formação dos nossos contratos, incluindo o controlo dos fornecedores e da execução dos contratos.

Nesta matéria, e na minha experiência, sobretudo, de gestão de contratos na área ambiental, o esforço tem sido no sentido de continuamente clarificarmos e reforçarmos os requisitos da prestação dos serviços, no sentido de os alinhar com as nossas diretrizes ambientais e os nossos compromissos, e de fazermos um controlo muito próximo da qualidade dos serviços prestados.

Paralelamente, colaboramos com os outros serviços na identificação de critérios ecológicos que possam ser incluídos em aquisições de bens e serviços, seguindo os princípios das compras públicas ecológicas. 

 

Para finalizar, sendo a Sónia uma profissional de referência na Sustentabilidade em Portugal, como tem visto a evolução do tema para as pessoas e empresas no nosso país? O que antecipa que venha a acontecer nos próximos anos? 

A evolução tem sido exponencial. Mesmo que ainda estejamos muito no início do caminho de um futuro sustentável, noto uma diferença absoluta na forma como a sustentabilidade é hoje abordada no contexto organizacional em relação há poucos anos.

Quando comecei a trabalhar nestes temas, a pressão para uma organização promover a sua sustentabilidade vinha dos poucos profissionais da área e de académicos e a comunicação era muito unilateral.

Hoje em dia, na minha opinião, um dos grandes motores da promoção da sustentabilidade organizacional são os colaboradores, que exigem que a sua organização ou empresa seja muito melhor, que tenha um propósito e não um apenas um negócio.

A pandemia COVID-19 veio acelerar muitas tendências e alterar a direção de outras, e estamos em plena mudança. Na área da sustentabilidade, tenho muita esperança de que os temas sociais e éticos, da diversidade, da empatia e da tolerância, entre outros, ganhem cada vez maior projeção e estejam presentes de uma forma séria e consequente nas agendas das empresas e no seu propósito de criação de valor social.

Sónia Pereira da Silva

Diretora da Unidade de Sustentabilidade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Iniciou a sua carreira profissional em 1998, ainda enquanto estudante, no Instituto Politécnico de Coimbra, onde trabalhou na área da comunicação institucional. Entre 2000 e 2004 assumiu as funções de responsável do seu Gabinete de Comunicação e Imagem, coordenando as atividades de comunicação institucional e assessoria de imprensa.

Em 2004 assumiu o cargo de coordenadora do Gabinete de Comunicação e Imprensa do organismo público central responsável pela promoção da segurança e saúde no trabalho e inspeção das condições de trabalho, à altura o Instituto de Desenvolvimento e Inspeção das Condições de Trabalho. Durante os 5 anos seguintes em que trabalhou na área da segurança e saúde no trabalho, coordenou toda a atividade de comunicação institucional, de publicidade e de assessoria de imprensa.

Em 2009 foi assessorar o Departamento da Qualidade e Inovação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma área nova da instituição. Foi neste contexto que participou na estruturação e operacionalização da REPARAR – Ação de Voluntariado de Reparações Solidárias. No início de 2012 integrou a equipa do departamento responsável por estruturar e operacionalizar a Estratégia de Sustentabilidade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. No final do mesmo ano, assumiu a direção da recém-criada Unidade de Sustentabilidade e Inovação, o serviço responsável por impulsionar a sensibilização e mobilização para a sustentabilidade dentro do universo da Santa Casa. 

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