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Luís Rochartre Álvares é uma referência nacional e internacional na área da sustentabilidade, com um trabalho notável na direção do Forest Solutions Group (FSG) do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e temos o privilégio de ter falado com ele. Uma entrevista que não vai querer perder, para compreender melhor o universo das florestas e o que está em causa para termos uma planeta mais sustentável, na perspetiva do próprio. 

 

 

reflection on trees on clear body of water during sunset

 

Quando assumiu, em 2018, a liderança executiva do Forest Solutions Group, do grupo World Business Council For Sustainable Development (WBCSD), disse numa entrevista que se tratava de cumprir um desejo antigo de ter uma ocupação com capacidade de impacto no setor florestal.

Passados dois anos, o desejo está cumprido? Que desafios enfrenta?

Como sempre que vamos para uma responsabilidade nova, nunca temos a perfeita noção de tudo o que pode acontecer. Mas confirmo que a minha vontade de contribuir para o impacto do sector se confirmou, hoje o Forest Solutions Group reforçou a sua voz na arena internacional. Os desafios corporizam-se em dar sequência a uma agenda ambiciosa que aponta os caminhos da sustentabilidade para as empresas de base florestal.

Foi muito estimulante contribuir também para a diversificação, e aumento, dos sectores representados no Grupo. Onde antes tinhamos sobretudo empresas dos sectores da pasta, papel e embalagem, hoje temos também empresas líderes nos materiais de construção, texteis de base florestal e área financeira.

 

O que é uma “working forest”?

Explique-nos um pouco o conceito (onde se situam, quais as características e diferenças com natural forests como a Amazónia).

O termo “working forest” é um conceito anglo saxónico, que explica que as florestas que nós representamos são as florestas geridas pelo homem, sejam áreas semi-naturais, como na Escandinávia ou América do Norte, ou plantações em latitudes mais a Sul. Assim, estamos  falar de toda e qualquer floresta na qual a gestão humana é determinante no seu funcionamento.

A floresta da Amazónia trata-se de um complexo ecossistema natural, onde o homem está presente, mas tem um impacto reduzido na evolução do sistema natural (ou deveria ter, se não quisermos quebrar o equilíbrio natural).

Existem hoje referenciais, aceites em todo o Mundo, que permitem certificar a gestão florestal sustentável.

 

photography of tall trees at daytime

 

É muito importante aproximar o setor florestal aos objetivos do desenvolvimento sustentável.

Quais são os principais desafios que existem para que tal se concretize?

Hoje é fundamental que qualquer atividade humana possa saber como está a contribuir para que se alcancem os ODS. No caso especifico do sector florestal, tive o privilégio de coordenar a elaboração de um roteiro para o sector. Trabalhámos durante mais de 18 meses com os nossos membros, com consultores e um grupo de stakeholders para construir este roteiro.

No final, para lá da caracterização dos impactos positivos e negativos do sector, definimos 22 acções para potenciar o impacto positivo do sector.

Hoje estamos a ultimar o primeiro relatório de implementação das recomendações entre os nossos membros. Este exercício revelou-se de grande importância para a Grupo, bem como para muitos stakholders externos, por exemplo muitas empresas usam-no hoje nas suas análises de materialidade ou a associação canadiana das indústrias florestais adoptou o roteiro como a sua visão para os ODS.

 

Outra estratégia passa por assegurarmos que as nossas mensagens passem nos grandes palcos mundiais onde a sustentabilidade seja o tema

 

Um dos principais desafios quando abraçou o cargo foi o de construir de uma nova abordagem de comunicação para os diferentes stakeholders na área da floresta a nível global.

Que ações têm sido ou vão ser implementadas neste sentido?

Temos vindo a adotar o nosso plano de comunicação aos diversos momentos que a agenda vai propiciando, bem como a edição dos nossos conteúdos, como por exemplo o roteiro para os ODS. Como o sector florestal é um sector eminentemente B2B e as principais necessidades de comunicação estão nos consumidores e nos media, existe um desafio muito grande a ultrapassar.

Assim, de um plano virado para os stakeholders mais próximos, estamos a evoluir para construir conteúdos que nos permtiam alcançar stakeholders mais distantes. Outra estratégia passa por assegurarmos que as nossas mensagens passem nos grandes palcos mundiais onde a sustentabilidade seja o tema, as conferências das diferentes agencias das Nações Unidas, processos intergovernamentais bem como as principais conferências sobre florestas e produtos florestais.

 

body of water surrounded by pine trees during daytime

 

Em Portugal, quais são as dificuldades que as indústrias florestais têm para comunicar? São partilhadas a nível global, ou temos especificidades próprias? 

Em Portugal não estamos muito longe das preocupações globais de comunicação do sector. Por um lado temos um grande goodwill, que advém da origem dos nossos produtos e das suas características sustentáveis, recicláveis e circulares, por outro existe uma rejeição ao corte de árvores, à gestão das florestas ou ao impacto das actividades industriais. Existe um problema de percepção pública dos impactos do sector, que é amplificado pelo “senso comum” e os media tradicionais.

Assim, o desafio é muito grande, mas o facto de ser global não o torna mais difícil em qualquer geografia.

 

Nós, enquanto sociedade, temos trabalhado mais no combate à insustentabilidade, ao diminuir a poluição, ao dar atenção ao equilíbrio social das diversas regiões, etc. Não temos estado tão apostados em construir a sustentabilidade.

 

Numa entrevista que deu afirma que: “nós, enquanto sociedade, temos trabalhado mais no combate à insustentabilidade, ao diminuir a poluição, ao dar atenção ao equilíbrio social das diversas regiões, etc. Não temos estado tão apostados em construir a sustentabilidade”.

A seu ver que passos têm que ser dados para se construir a sustentabilidade?

É uma afirmação que mantenho, as abordagens tendem a ser curtas em relação às necessidades. Como se vê, por exemplo na caso das emissões de dióxido de carbono, temos estado a tentar diminuir as emissões usando ligeiros ganhos incrementais, mas que no geral são insuficientes.

Precisamos de uma transformação radical do sistema económico, em que sejam efectivamente eliminadas as emissões. Conhecemos onde o devemos fazer, sabemos como o poderíamos fazer, mas efectivamente não o estamos a fazer. Não estou a afirmar que é fácil, temos consciência que esta transformação tem que ser sistémica, pois existe um grande interrelacioamento entre os diversos sistemas.

Não terá efeito mudar-se umas coisas e deixar outras iguais, há que transformar todos os sistemas fundamentais.

 

Na sua perspetiva, como está o desempenho de Portugal na área da sustentabilidade?

O que precisamos colmatar ao nível da sustentabilidade empresarial?

Em Portugal estamos a fazer um caminho interessante. Temos muitos bons exemplos em algumas áreas, mas ainda temos muitos sectores onde pouco se está a fazer. Não acredito na compartimentação da sustentabilidade, logo não acho que deva haver qualquer análise especificamente empresarial. Considero, sim, que a generalidade das empresas ainda não olham para os desafios da sustentabilidade com a intensidade que deveriam estar a fazer.

Ainda é frequente ouvirmos dizer que a sustentabilidade é muito bonita, mas que há que ganhar dinheiro, estas afirmações só demonstram que ainda não entenderam que não existe um plano b, só há um caminho e se o negarem hoje, estão a aumentar o risco de se tornarem irrelevantes a curto prazo.

Este ano temos vindo a testemunhar importantes avanços na agenda com tomadas de posição a favor do caminho da sustentabilidade de entidades insuspeitas de radicalismo, como o fundo BlackRock, o maior fundo de investimento do Mundo.

 

green tree near body of water under white and blue sky

 

Peter Bakker (presidente e CEO do WBCSD) e John Elkington (executive chairman na Volans), recentemente escreveram que a pandemia COVID-19 ofereceu-nos a oportunidade de mudarmos para um mundo mais resiliente e mais sustentável.

Quais são, no seu entender, estas oportunidades?

Qualquer acontecimento traumático, como este que vivemos actualmente, tem a capacidade de gerar mudança, pois há a tendência de se por a realidade em causa. As oportunidades podem ser concretizadas se realinharmos as prioridades das nossas sociedades.

Os principais desafios que enfrentamos são:

  • urgência climática
  • perda da biodiversidade
  • desigualdade social.

Em todas estas frentes, podemos verificar que a crise pandémica nos fez ver melhor os riscos que corremos. Com a diminuição da actividade económica e a impossibilidade de nos deslocarmos assistimos a uma brusca diminuição das emissões de dióxido de carbono, demonstrando que é possível diminuir drasticamente as emissões. Verificamos também o súbito aumento da presença dos animais em espaços humanizados, mostrando que a convivência é possível desde que os nossos impactos sejam controlados.

Infelizmente as questões da desigualdade social não tiveram um alívio, antes pelo contrário, verificamos que as populações mais pobres são as que sofrem mais com a pandemia. Logo, temos alguns bons sinais e demonstram que é possível empreendermos um caminho de transformação do nosso modelo económico.

 

O WBCSD resume o futuro em três palavras: “clean, lean e mean”. Concorda?

A nossa visão do futuro sustentável é que em 2050 os cerca de 9 mil milhões de habitantes da Terra viverão bem, dentro dos limites do planeta.

O trinómio “clean, lean and mean” traduz, em relação ao que conhecemos hoje, a visão de como conseguirmos viver bem dentro dos limites do Planeta, com uma melhor utilização dos recursos de que dispomos.

Conheça o trabalho de Luís Rochartre Álvares no Forest Solutions Group em www.wbcsd.org/Sector-Projects/Forest-Solutions-Group

Luís Rochartre Álvares

Diretor do Forest Solutions Group (FSG)

Engenheiro florestal, nasceu há 58 anos em S. Miguel (Açores). É desde 2018, diretor do Forest Solutions Group (FSG) do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). O WBCSD é constituído por conselhos empresariais de diversos países e mais de 200 das maiores empresas mundiais, o FSG junta as empresas líderes com actividades ligadas à floresta e aos produtos florestais. Engenheiro florestal, formado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, exerceu, ao longo de 20 anos, cargos em quase todas as áreas ligadas à floresta e à gestão de empresas.

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