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Nem todos estamos no mesmo estágio de maturidade em relação aos hábitos compra e vida saudáveis. Por esse motivo, decidimos conversar com Ana Rita Freitas, psicóloga, para compreender melhor o que tem influenciado positivamente os hábitos de compra e vida e o que podemos fazer para mudar o que está menos bem.

Vários estudos indicam que os consumidores procuram cada vez mais produtos sustentáveis. Que variáveis poderão estar a contribuir para esta tendência?

Os conceitos de sustentabilidade e de desenvolvimento sustentável têm vindo a ganhar força e são cada vez mais debatidos na nossa sociedade. Isto denota uma preocupação com o meio ambiente, com os recursos naturais, com a economia e em simultâneo com a saúde do ser humano (em todos os domínios). É importante satisfazer as necessidades da sociedade presente sem comprometer as necessidades e a qualidade de vida das próximas gerações. 

Esta preocupação e procura por produtos sustentáveis pode dever-se a inúmeros fatores. Acredito que o surgimento de vários estudos de diversas áreas tenha permitido uma maior compreensão do funcionamento dos sistemas e até mesmo uma antecipação daquilo que poderá ocorrer no caso de não haver uma rápida alteração de comportamento.

Efetivamente, estes estudos apresentam de forma explícita quais os comportamentos a adotar para a prevenção de possíveis consequências e fazem-no tendencialmente com recurso a uma linguagem simples o que permite chegar a todos com a mesma clareza e entendimento.

 

As gerações mais novas tendem a ser mais preocupadas com estas questões. Porque motivos?

As gerações mais novas têm acesso a informação sobre a sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável cada vez mais cedo através das escolas e dos meios de comunicação social. Isto faz com que desde crianças procurem adoptar comportamentos considerados adequados para a manutenção de uma vida sustentável não só durante a sua existência como nas próximas. Inegavelmente, a sensibilização para estes temas ocorre cada vez mais cedo e por esse motivo a tomada de decisão também. As mudanças climáticas e ambientais por exemplo eram pouco debatidas nas gerações anteriores e quando se refletia sobre o tema, pensava-se ser algo que ocorreria passado muitos séculos, o que não é verdade. 

Hoje todos somos confrontados com esta realidade e até há medidas que nos obrigam a operacionalizar mudanças no nosso comportamento, como é o caso da obrigatoriedade de reciclar.

 

 

 

Existe também uma questão social relacionada com a compra de produtos verdes, pois existe uma conotação positiva associada. Acredita tratar-se de altruísmo genuíno?

Efetivamente, a compra de produtos verdes, bem como outros comportamentos sustentáveis, envolve questões sociais como é o caso da saúde e da qualidade de vida de todos nós. Acredito que muitas das pessoas que adotam estes comportamentos o fazem de forma puramente altruísta, ou seja, dedicando-se aos outros, porém, outros poderão fazê-lo de forma egoísta o que é igualmente válido. Adotar um comportamento “egoísta”, não no sentido mais rude da palavra, mas sim na lógica de “faço isto por mim, para me sentir bem, para me sentir feliz e realizado”. Esta atitude é inteiramente adequada. 

Se refletirmos, apesar de tendencialmente o altruísmo e o egoísmo serem considerados conceitos opostos, eles podem estar inteiramente associados. O altruísmo também pode ser “egoísta” no sentido em que eu luto pelo bem estar e pela qualidade de vida dos outros porque isso me faz sentir bem comigo mesmo e me faz sentir realizado. 

Se cada um adoptar comportamentos adequados para si e para se sentir bem consigo mesmo, toda a sociedade beneficiará e as gerações futuras também. 

 

Quais as motivações que levam a seu ver as pessoas a querer mudar o seu estilo de vida e adotar práticas sustentáveis?

Tal como disse anteriormente, acredito que hoje as pessoas estão mais conscientes dos verdadeiros riscos que a nossa geração e as futuras gerações correm em consequência dos comportamentos tomados até então. 

Hoje, há uma maior valorização do mundo no geral, incluindo por exemplo da natureza que no nosso país reflete inteiramente a sua beleza.

Hoje, nós sabemos que o futuro depende de nós e há uma maior preocupação nesse sentido. Queremos que os nossos filhos, netos, bisnetos e todas as pessoas que virão, possam usufruir de um mundo tão belo como nós usufruímos. Viver com qualidade de vida é um privilégio e não podemos ter comportamentos que irão ter um impacto negativo na vida das próximas gerações. 

 

 

 

A pandemia está também a contribuir neste sentido?

A pandemia veio, acima de tudo, demonstrar-nos que somos frágeis e que em segundos a nossa vida, em particular o nosso estilo de vida, pode mudar. Embora ainda existam muitos debates sobre a verdadeira origem do vírus, há uma coisa que nenhum de nós pode negar: o mundo está a dar sinais dos exageros e do desleixo que cometemos ao longo das gerações passadas e da nossa. O mundo está cansado e a ficar doente. Cabe a cada um de nós dar o seu melhor para lutar e travar esta realidade. Espero que a pandemia e o facto de termos ficado em casa fechados, nos tenha dado a oportunidade de refletir sobre isto e de operacionalizar mudanças nas nossas vidas! 

 

Acredita que se trata de uma moda ou é um estilo de vida que veio para ficar?

Descobrir as verdadeiras razões pelas quais as pessoas adotam um determinado estilo de vida ou um determinado “padrão de consumo” é uma tarefa extremamente difícil. Cada pessoa terá as suas motivações para o fazer. De modo geral, acredito que a influência dos meios de comunicação social seja um fator de enorme relevo e que se trata de um estilo de vida com tendência a reforçar-se nas próximas gerações. Espero, sinceramente, que seja uma realidade “para ficar”.

Este tipo de conteúdo e de debate poderá ajudar a que isso ocorra. Vamos falar sobre isto, vamos alertar constantemente as pessoas para estas realidades. É a nossa missão.

 

Há pessoas que querem mudar o seu estilo de vida mas depois a inércia e a falta de tempo tornam-se obstáculos. Que conselhos daria para que tal não aconteça?

Para uma mudança de estilo de vida a palavra de ordem terá que ser Organização. Se quer mudar a sua vida precisa de se organizar! Tudo o que é importante para nós tem data e hora marcada. Faça um horário semanal com todas as atividades que precisa e quer fazer, incluindo por exemplo passeios ao ar livre, a reciclagem, as compras, a confeção de refeições previamente, a plantação dos seus próprios alimentos, etc. Escolha os comportamentos que quer adotar e inclua-os na sua vida diária não como uma opção mas como uma atividade com a mesma importância do que o trabalho por exemplo. Isto irá combater a procrastinação. Nós não temos falta de tempo, temos é o nosso tempo desorganizado. 

Numa fase inicial, comece por operacionalizar pequenas mudanças e ao longo do tempo vá optando por mudanças cada vez mais desafiantes para si. 

Um número grande de pequenas coisas pode em conjunto representar um grande contributo para o desenvolvimento sustentável.

Vamos deixar-nos de “desculpas”. Comece hoje! 

Para terminar, gostaria de expor a ideia basilar que tem sido apresentada sempre que falamos de sustentabilidade: “Comportamentos individuais podem alcançar transformações globais”. Vamos a isso! 

Ana Rita Freitas 

Psicologia | Neuropsicologia | EMDR | Hipnose Clínica.

Conheça o trabalho em www.facebook.com/anaritafreitaspsicologia/

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