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Marta Vasconcelos, investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina, conversou connosco para nos dar a conhecer um pouco mais sobre dois projetos da Universidade Católica que visam promover a agrobiodiversidade e a importância das leguminosas na alimentação, com o objetivo de proporcionar uma indústria agrícola mais sustentável.

Projeto RADIANT

No que consiste o projeto RADIANT?

O projeto RADIANT é um projeto europeu financiado pelo H2020, coordenado pela Universidade Católica Portuguesa, e que representa um consórcio de 29 parceiros que se juntaram para desenvolver ferramentas que promovam a agrobiodiversidade, as cadeias curtas e dinâmicas, e o cultivo de cerca de 15 variedades antigas, esquecidas ou subutilizadas de leguminosas, cereais e espécies hortícolas. É um de 4 projetos europeus que foram aprovados nesta temática, e decorrerá de 2021 até 2025. Foi criado um site onde todos podem ir procurar informações mais detalhadas sobre os trabalhos que se irão realizar, sobre os eventos que se vão organizar, e onde estarão descritas as diversas formas de colaboração com o projeto. Podem encontrar todas as informações aqui (https://www.radiantproject.eu/) e podem também seguir-nos nas redes sociais do Twitter, Facebook, Instagram e LinkedIn.

Estando este projeto assente na “Teoria da Mudança”, qual é a principal alteração que se vai poder verificar?

O RADIANT resulta de uma tomada de consciência da necessidade de criarmos soluções holísticas e integradoras que envolvam todos os intervenientes das cadeias de valor (agricultores, retalhistas, chefs, nutricionistas, consumidores…), no sentido de se fazer uma promoção mais eficaz do cultivo de espécies subutilizadas, e tornar esta transição rentável, sustentável e justa para todos. O RADIANT propõe realmente uma filosofia de trabalho construída em redor de uma “Teoria da Mudança” que reconhece a necessidade sem precedentes de incluir estes múltiplos atores e envolver toda a sociedade para apoiar a aprendizagem multilateral. Acreditamos que só assim conseguiremos criar uma base de evidências solidas sobre os benefícios da agrobiodiversidade e das espécies subutilizadas nas suas múltiplas dimensões de valor (agronómico, ambiental, económico, nutricional, de resiliência), e desenvolver ferramentas que quantifiquem e exibam estes benefícios da melhor forma. Iremos também identificar as medidas de governança e as estruturas políticas necessárias para a implementação efetiva de espécies subutilizadas em cadeias de valor alimentar e não alimentar.

 

Qual a importância do desenvolvimento deste projeto para a agricultura?

A ambição deste projeto é mudar a forma como a europa neste momento encara as variedades e culturas mais alternativas e menos mainstream, incorporando mais biodiversidade no campo, e tornando-a apetecível tanto para o agricultor como para o consumidor. Iremos demonstrar diversos exemplos de transições bem-sucedidas para sistemas inclusivos de agrobiodiversidade nas nossas 20 “Quintas AURORA”, que estão espalhadas em toda a Europa. Em Portugal, para além das duas AURORA com quem trabalharemos, sabemos que há inúmeros outros exemplos fantásticos destas boas praticas, com os quais gostaríamos de colaborar, divulgar e mediatizar, para podermos inspirar outras pessoas e organizações a inovar nesta área e a adotarem novos “eco-sistemas de inovação”. Iremos inclusive organizar uma atividade de agricultura participativa com apoio financeiro e mentoria, onde convidaremos 40 equipas a testar algumas das nossas espécies alvo e a incluir as mesmas em cadeias de valor dinâmicas. É hoje amplamente reconhecido que escolhas feitas localmente também têm impactos globais significativos quando se trata da realização, ou não, de aspetos socio-ecológicos nos sistemas alimentares. Pretendemos promover também dietas mais sustentáveis baseadas em produtos locais e que promovam a biodiversidade e a qualidade dos solos, garantindo assim alimentos que nos ajudam a regenerar os ecossistemas. O projeto RADIANT terá impactos sociais e económicos mais amplos, garantindo uma contribuição sustentada para o bem comum por meio do conservação e promoção da biodiversidade, reduzindo o impacto negativo dos sistemas alimentares nas alterações climáticas e tornando mais positiva a imagem da agricultura na sociedade.  

 

Quais os benefícios deste projeto para o ambiente e/ou para a sociedade? 

Para além de trabalharmos o reconhecimento das culturas alternativas, caracterizando os seus benefícios funcionais, nutricionais, de saúde e ambientais, estas culturas serão também testadas para gerar alimentos sustentáveis, rações e produtos não alimentares com serviços de ecossistema melhorados.  O RADIANT produzirá um novo conceito de rotulagem e uma marca registada para ajudar a promover o reconhecimento destas culturas e produtos. Os consumidores terão acesso mais direto a estes alimentos produzidos localmente, e também a receitas, via uma aplicação de telefone especialmente desenvolvida para este efeito. O projeto também desenvolverá uma série de outras aplicações web embutidas no nosso site que apoiarão os agricultores a atores das cadeias de valor a incorporar estas culturas nos seus negócios. Esperamos que estas ações ajudem a promover a tomada de consciência para os sistemas alimentares e cultura locais, e para a sustentabilidade em geral. 

Qual será o impacto económico e ambiental na agricultura após a implementação deste projeto?

A produtividade agrícola deve ser aumentada em 50% para suportar o aumento da demanda por alimentos nutritivos entre 2012 e 2050. Ao melhorar o cultivo, comercialização e consumo de espécies subutilizadas, o RADIANT irá contribuir em diferentes níveis para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2, 3, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 15 e para os compromissos da COP21. O projeto terá um grande impacto sobre a economia e sociedade melhorando a qualidade, adaptação e rendimento das espécies subutilizadas, aumentando a competitividade da agricultura e setor alimentar na Europa, em consonância com a ambição de políticas a nível da União Europeia que incluem a PAC, a Estratégia de Biodiversidade, o Fundo Europeu Agrícola para o Desenvolvimento Rural, Empreendedorismo e Programas de Inovação, o Green Deal e a estratégia Farm to Fork. Em particular, o RADIANT apoiará as metas principais da estratégia da UE para 2030 de redução de 50% no uso e risco de pesticidas (RADIANT inclui exemplos de agricultura orgânica, agricultura de conservação, consorciações, etc.); redução de pelo menos 20% no uso de fertilizantes (o forte foco da RADIANT em plantações de leguminosas ajudará diretamente neste objetivo) e alocar 25% das terras agrícolas destinadas à agricultura biológica. Mas o RADIANT conta com muitas colaborações e redes para a execução de todos estes objetivos. Por exemplo, o projeto nacional financiado pela Fundação Gulbenkian e coordenado pela investigadora da UCP Carla Santos, o LeguCon, está por sua vez totalmente dedicado às leguminosas, e irá ajudar a concretizar estes objetivos.

 

Projeto LeguCon

No que consiste o projeto LeguCon?

O projeto LeguCon pretende estabelecer uma ligação direta entre a ciência, o setor de produção e o consumidor, através da realização de experiências participativas e de uma presença ativa e de caráter informativo nas redes sociais. Consiste, assim, na promoção de uma série de iniciativas para aumentar o conhecimento, junto dos cidadãos, acerca da importância das leguminosas para o ambiente e para a nossa saúde. 

O projeto começou em dezembro de 2020 e, ao fim de um ano, conta já com um consórcio constituído por 75 inscritos, que se dividem nas diversas áreas de interesse da cadeia de valor das leguminosas – tendo representatividade não só do setor agrícola e da área da ciência, mas também da indústria alimentar e cidadãos interessados. Contamos também com o Departamento de Reabilitação do Centro de Acão Social do concelho de Ílhavo como parceiro do projeto, no sentido de demonstrar (para além do valor ambiental) o valor social do cultivo de leguminosas. O consórcio é aberto a todos e para se juntarem basta aceder em: https://legucon.pt/parceiro/

Desta forma, pretendemos perceber quais as necessidades, os obstáculos e as motivações para aumentar a inclusão das leguminosas nos campos e nos pratos dos portugueses e, com esta informação, pretendemos implementar medidas práticas para alavancar esta necessária mudança.

Um dos objetivos é fomentar práticas agrícolas mais sustentáveis para o meio ambiente. Como pretendem fazê-lo?

Uma vez que o setor agrícola contribui para cerca de 25% da emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera, é muito importante implementar práticas agrícolas mais sustentáveis. Uma das principais causas para este encargo ambiental é aplicação de altas quantidades de fertilizantes e pesticidas.

As leguminosas são muito benéficas por serem fixadoras naturais de azoto (o que reduz a dependência em fertilizantes) e não exigirem grandes quantidades de água para o seu cultivo. Na região Norte, uma das culturas mais utilizadas é o milho, frequentemente cultivado em modo de monocultura. As leguminosas são ideais na implementação de sistemas de rotação ou de consociação de culturas. Ao implementar estas práticas nos campos, as pragas e doenças que afetam a cultura principal (por exemplo, o milho) são também reduzidos, uma vez que as leguminosas são menos suscetíveis e quebram os seus ciclos. Desta forma reduzimos também a dependência em pesticidas.

Para fomentar estas práticas agrícolas mais sustentáveis, temos em curso uma experiência participativa, iniciada na Primavera de 2021, através da qual apoiamos 6 agricultores da Região Norte com um incentivo monetário e apoio técnico especializado para cultivarem leguminosas – grão-de-bico e feijão-frade – em 1 hectare dos seus terrenos. O primeiro ciclo cultural já terminou, com sucesso, e os agricultores apoiados pelo projeto serão testemunhas das vantagens (mas também das dificuldades) de introduzir leguminosas numa área agrícola. Com base nesta iniciativa, tivemos agricultores de outras Regiões do país que quiseram também adotar estas práticas e que implementaram leguminosas com o apoio técnico do projeto.

Por que razão o grão-de-bico e feijão-frade são as leguminosas chave para este projeto?

Estas duas leguminosas foram escolhidas para o arranque do projeto uma vez que os nossos parceiros Lusosem, A Sementeira e Nutriprado deram-nos acesso a variedades nacionais – grão-de-bico ‘Casal Vouga’ e feijão-frade ‘Clérigo’ – com alto valor económico e potencial de exploração. Deste modo, pretendermos apoiar a indústria nacional e reduzir a dependência da importação de sementes, quer para o setor de produção, quer para o consumo.

Mais ainda, o consumo destas leguminosas tem aumentado exponencialmente como proteínas alternativas, não só em dietas mais restritivas como a vegetariana ou vegana, mas também para os consumidores que pretendem reduzir o consumo de proteína animal e seguir as recomendações do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, que preconiza o consumo diário de 80 g de leguminosas cozidas.

 

Qual é a contribuição da realização deste projeto para o meio ambiente?

Atualmente importamos mais de 70% das leguminosas que consumimos e a maior parte delas são provenientes de países distantes como a Argentina, México e Estados Unidos da América. O aumento da produção de leguminosas a nível nacional permitirá assegurar o nosso auto-aprovisionamento nestes produtos alimentares, reduzindo a pegada ecológica associada à logística e ao transporte, e tornando as cadeias de valor associadas mais sustentáveis e resilientes. Deste modo, e associando também as mudanças promovidas a nível da produção e consumo, o projeto pretende contribuir para que o Portugal consiga atingir as metas propostas para a redução de emissões de carbono até 2030 em 50% e para atingir a neutralidade carbónica em 2050.

Marta Vasconcelos

É investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF), da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa.

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