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SOS Animal

Sandra Cardoso, presidente do SOS Animal, fala-nos sobre a grande problemática dos plásticos nas indústrias, o seu impacto e a urgência de alterar os nossos hábitos de consumo. Uma entrevista que nos revela a realidade que muitos ignoram.

Já existem muitos seres vivos que já têm os seus organismos com plástico. É preciso reinventar completamente a indústria do plástico para que esta situação se reverta?

Sim, infelizmente o plástico já está provado que está presente como microplástico em muitos seres vivos que habitam a água mas também muitos seres vivos que através da ingestão da água ficam contaminados com microplástico. Já se encontrou até microplástico na placenta de uma mulher grávida. Isto é um problema grave, transversal a todos os seres, não só mamíferos mas também aves, répteis, até mesmo insetos já sofrem com o plástico e microplástico. 

Quando se fala de reinventar a indústria do plástico, das duas uma: Ou a indústria se consegue transformar em plástico biodegradável uma vez que já existe tecnologia capaz para tal; Ou a indústria como a conhecemos, desde garrafas de refrigerantes aos sacos dos supermercados, tem de desaparecer. Não existe outro caminho, é necessário eliminar o plástico como o conhecemos e substituí-lo por um componente que é um plástico biodegradável. Quando falamos em biodegradável quer se dizer um componente que se decomponha em meses e não em 50 ou 60 anos. 

 

Estando os consumidores a ser confrontados com plástico muitas vezes no nosso dia a dia, como é que podemos evitar o consumo deste tipo de material?

Pode-nos parecer pouco mas se nós formos ao supermercado e levarmos os nossos próprios recipientes ou plásticos, ou mesmo sacos de pano para trazer todos os legumes ou frutas que consumimos, já estamos a reduzir a pegada que fazemos semanalmente, sendo esta uma redução bastante significativa.

Alterar pequenas ações no nosso dia a dia, como evitar copos de café de plástico, o fast food também é outro mercado que utiliza muito plástico, apesar de muitos restaurantes já estarem a substituí-lo por cartão, optar por champôs sólidos e não embalagens de plástico, entre outros. 

É preciso ter uma visão crítica de todos os produtos que adquirimos, se são ou não efetivamente fundamentais para nós, ou se são artigos que não têm tanta relevância e pouco uso lhes vamos dar. A maior parte dos artigos são feitos ou estão embalados em plástico. Se nós conseguirmos ser conscientes nestas escolhas já estamos a reduzir uma parte muito significativa da nossa pegada ambiental e é uma decisão que parte de nós, não necessariamente das empresas.

A campanha da SOS Animal Portugal, Se Nada Fizermos, Em 2050 Teremos Mais Plástico do que Peixes no Mar, pretende alertar para a mudança de hábitos de consumo de cada um de nós. Apesar deste tema ser trazido para cima da mesa, é preciso uma maior consciencialização das empresas e dos consumidores para este tema?

Efetivamente as empresas são a grande alavanca do consumo desenfreado e têm de ser elas a tomar uma atitude para mitigar o problema grave que é a gestão dos plásticos e dos resíduos que temos no planeta, até porque já temos continentes de plástico porque não conseguimos gerir este problema atempadamente. 

As empresas não o vão fazer, simplesmente porque são altruístas. Ou o fazem porque existe uma legislação que os obrigue, e é pena que a União Europeia não trabalhe mais neste sentido para que, pelo menos, os estados membros fossem obrigados a erradicar o plástico. Ou o fazem porque os seus consumidores assim o exigem. 

Por exemplo, eu adoro coca-cola e deixei de o fazer com tanta regularidade por ter consciência que a garrafa tinha um impacto gigante nos ecossistemas do mundo inteiro. O mesmo tenho feito com muitos outros produtos que vêm embalados em plástico, prefiro evitá-los por ter essa preocupação ambiental.

Vai eventualmente haver dois caminhos: ou pela obrigação da legislação, que deve ser implementado o mais rápido possível; ou pelos próprios começam a reduzir o consumo, comunicando com a marca através de reclamações para que a indústria não se mantenha assim.

Embora a nossa campanha tenha sido importante e chegado a milhares de pessoas, felizmente, é apenas uma companha. Precisamos de constantes campanhas e informação sobre esta temática para que consigamos consciencializar os portugueses, europeus e as pessoas do mundo inteiro. 

Os países mais ricos podem optar por dizer que não ao plástico e não o fazem por desinformação ou ocultismo, já os países menos desenvolvidos têm mais dificuldades ou muitas vezes não podem optar por outros caminhos. Por isso mesmo, é nossa obrigação, enquanto países desenvolvidos, arranjar soluções e até mesmo ajudar os países menos desenvolvidos

São muitas as espécies marinhas a ser afetadas com a poluição do plástico nos oceanos. Sente que as pessoas têm noção da verdadeira dimensão do problema?

Os artigos científicos comprovam que todas as espécies marinhas, nomeadamente os corais, que também são animais, estão a ser extremamente afetados pela poluição do plástico numa proporção catastrófica pelo nosso consumo desenfreado do plástico. A meu ver, a população sabe que isto existe, mas não percebe ou não quer perceber (por comodismo muitas vezes) a dimensão do problema e como isto pode afetar até a sobrevivencia da espécie humana.

 

Uma das principais fontes de poluição dos mares são as redes de pesca. Que ações considera importantes para reduzir este impacto?

As redes de pesca que são deixadas, que se partem ou perdem, têm um impacto brutal em todos os animais. Por um lado, é realmente importante haver uma fiscalização acesa, que não há, de quantas redes vão para o mar e quantas regressam e haver mesmo um fundo como projeto financiado por quem pesca para recolha destas redes no sentido de não causar os danos que elas causam. Por outro lado, teremos de pensar que a abolição da pesca terá de ser uma opção, uma vez que esta indústria não tem apenas o impacto das redes que são deixadas, mas também o facto de estarmos a retirar especies que têm um efetivo muito reduzido sendo que muitas já em vias de extinção outras já foram extintas por sobrepesca. 

O que estamos a fazer é retirar espécies dos oceanos que são fundamentais nas cadeias tróficas e a partir do momento que uma sai começa a haver um efeito borboleta em todas as outras e que irá também chegar ao humano.

Assim, considero que uma ação importante seria terminar com a pesca, principalmente pescas de arrasto e de grande escala entre outras e haver uma fiscalização muito mais apertada às multinacionaisque estão a devastar os oceanos com as suas pescas para tentar suprimir esta demanda de consumo de animais que às pessoas continuam a fazer sem pensar no impacto que isto tem no planeta.

 

O facto do vírus Covid-19 ser extremamente transmissível faz com que os materiais utilizados (por exemplo as máscaras) apenas possam ser utilizados uma única vez e que sejam extremamente descartáveis. Considera que a pandemia foi um fator que veio aumentar os níveis de poluição ambiental?

Efetivamente a pandemia veio trazer um acréscimo à utilização de equipamentos de proteção plásticos na sua maioria, nomeadamente no setor médico mas também no dia a dia das pessoas. Veio aumentar exponencialmente o consumo destes dispositivos médicos e já está a ter um impacto gigante uma vez que já temos muitas espécies que são encontradas com máscaras, luvas, etc. Apesar de se tratar de artigos que são essenciais para nós sobrevivermos a esta fase de pandemia, não se está a fazer uma gestão consciente, racional e sustentável para estes resíduos e vai aumentar muito os níveis de poluição.

Estando o plástico a afetar todos os seres vivos, e estando a SOS Animal alerta para isto, que outras iniciativas têm levado a cabo, além da meritória campanha desenvolvida?  

A SOS Animal tem levado a cabo várias iniciativas, desde a sua fundação, para alertar para o problema do consumo de plástico e o impacto que tem na vida de todos os seres. Já fizemos campanhas e ações nas escolas com crianças, nomeadamente o “um dia fish”, onde promovemos a literacia sobre o mar, a utilização do plástico e o seu impacto nos ecossistemas. Temos vindo a alertar de diversas formas para esta questão de modo a reduzir ou até mesmo a abolir o plástico como o conhecemos.

 

Alguns dos vídeos que estão no vosso website são muito fortes e mostram uma realidade de maus tratos aos animais que para muitos passa ao lado ou é desconhecida. Quer deixar algum apelo às pessoas?

Os vídeos que nós fazemos são fortes porque, efetivamente, é uma realidade que existe, ainda assim muito editada de modo a não ferir as suscetibilidades das pessoas. O que pretendemos com estes vídeos é alertar a consciência das pessoas e levá-las a fazerem escolhas, enquanto consumidores, ou enquanto cuidadores de animais, mais éticas e respeitadoras do bem estar animal.

Relativamente ao apelo: Vivemos num mundo que não é nosso, foi-nos emprestado pelas gerações que ainda hão de vir. Gostaria que as pessoas fizessem com o planeta o que fazem com a sua própria casa: cuidar o melhor possível para que possamos ter um planeta onde as gerações futuras possam ter um mar azul, um céu limpo, um ar respiravel, uma terra passível de ser lavrada. 

Estamos a observar a destruição de todos os ecossistemas viáveis da terra, e muito em breve tudo será artificial e teremos de viver em ambientes especialmente criados para que possamos manter-nos vivos. Além de devastarmos todos os outros ecossistemas de forma selvagem, estamos a caminhar para a aniquilação da nossa própria espécie. Portanto, quando temos um ato de consumo deveríamos estar mais conscientes que é uma forma de proteger ou de destruir o planeta. É necessário sermos mais conscientes de que cabe a cada um de nós a responsabilidade da proteção do nosso planeta, dos animais que dependem de nós e dos animais que estão nos ecossistemas selvagens.

Nasceu em Lisboa a 28 de maio de 1979, é Licenciada em Ciência em Comunicação com especialização em Comunicação Institucional, Mestre em Medicina Veterinária e Doutoranda em Ciências Veterinárias pela Universidade do Porto – ICBAS. Ativista pelos direitos dos animais e da natureza e médica veterinária, é a fundadora e Presidente da SOS Animal – Portugal desde 2007, uma ONG nacional de defesa dos animais e da natureza. Diretora Clínica da Clínica veterinária HVS SOS Animal desde 2015, foi produtora e realizadora da ideia original dos programas de televisão da SIC Generalista SOS Animal temporada 1 ( 2013) e 2 (2016) e À Descoberta Com temporada 1. ( 2019). Ganhou os prémios de Mulher Activa 2010 e Personalidade do Ano Lux 2014.

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