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3 pilares sustentabilidade

A Joana dos Reis Silva ajuda-nos a perceber a fundo os desafios da arquitectura sustentável em Portugal, que começa logo nas Universidades, mas também a perceber melhor o que é verdadeiramente arquitectura sustentável, que vai muito além do uso de materiais sustentáveis. E ainda deixa (excelentes) exemplos de construções verdadeiramente sustentáveis.

 

arquitectura sustentável - Escola Secundária Lycee Schorge - Francis Kéré - 2

Projeto: Escola Secundária Lycee Schorge em Koudougou, Burkina Faso | Arquitecto: Francis Keré

Que desafios existem neste momento na arquitectura, relacionados com a sustentabilidade?

De acordo com o Portal de Arquitectura e Construção Sustentável (PCS) , Portugal é um dos países da UE que regista uma taxa de qualificação na área da Sustentabilidade mais baixa, especialmente no sector da Arquitectura.

Neste âmbito, são vários os desafios que identifico a nível nacional:

  • Por um lado, os planos de estudos dos cursos de Arquitectura nas Faculdades Portuguesas não contemplam unidades curriculares focadas na arquitectura sustentável;
  • Por outro, existe uma fraca/inexistente oferta de formação na área da sustentabilidade por parte da própria Ordem dos Arquitectos.

Resultado: Arquitectos pouco conhecedores das práticas sustentáveis e, consequentemente, uma escassa aplicação destas nos projectos de arquitectura. Esta lacuna reflete-se no reduzido número de gabinetes em Portugal que se focam, exclusivamente, na arquitectura sustentável.

Ainda assim, relembro que estes desafios são transversais a todas as áreas. Assistimos a um aumento do número de Empresas com departamentos dedicados à sustentabilidade, no entanto, ainda são poucas as pessoas formadas nesta área. Sendo a sustentabilidade um tema atual, haverá certamente, num futuro muito próximo, mais oferta neste sentido.

Para além destes desafios ao nível da formação, refiro ainda que, os Governos, Câmaras Municipais e entidades competentes têm um papel relevante a desempenhar como catalisadores de mudança. Especificamente, no que respeita à Arquitectura, esse esforço  deverá estar reflectido ao nível das políticas de ordenamento do território e nos respectivos Planos Diretores Municipais (PDM).

 

Em que se diferencia a arquitetura “sustentável” da “convencional”?

Podemos definir resumidamente arquitetura como a arte de projectar edifícios tendo como base um conjunto de princípios e regras próprias.

Para a definição de Arquitectura Sustentável é necessário entender que o conceito de sustentabilidade se encontra assente em três pilares: ambiental, social e económico. Contudo, existe uma interpretação redutora da arquitetura sustentável, que tende a ser vista apenas como uma “arquitectura verde”, focando-se essencialmente na dimensão ambiental. Esta interpretação traduz-se na imagem criada pelo público em geral:

  • Num extremo existe a visão de uma arquitectura com base em materiais naturais e técnicas de construção manuais, da qual é exemplo a arquitectura em terra (visão primordial);
  • No outro extremo, a criação de uma imagem de grandes edifícios envidraçados e inteligentes, com coberturas verdes e forte componente de inovação tecnológica como os que vemos em grandes cidades (visão futurista).

Como referido, a arquitetura sustentável ainda que assente em 3 pilares, desenvolve-se maioritariamente sobre o impacto no ambiente, tendo como pressupostos fundamentais para a preservação deste:

  • A utilização de princípios bioclimáticos;
  • A economia de energia e de recursos e a sua, possível, reutilização;
  • A utilização de materiais eficientes;
  • A redução de produção de resíduos;
  • Etc.

Dito isto, os outros 2 pilares da sustentabilidade (social e económico) são, por vezes, menosprezados, o que resulta numa arquitetura direcionada a um “nicho” pertencente a uma classe socio-económica mais alta.

Qual a importância que tem a escolha de materiais sustentáveis? Que tendências temos vindo a assistir neste momento?

Para um projecto de arquitectura sustentável (ou mais sustentável) a escolha dos materiais adequados é fundamental para um menor impacto ambiental. Contudo, importa esclarecer o conceito por trás de materiais sustentáveis: O que são? Serão estes, em si mesmo, sustentáveis?

Um material pode ser sustentável dependendo do projecto (localização geográfica, uso pretendido, tipo de construção) e da sua aplicação no próprio projeto.

Um exemplo que podemos dar é a cortiça. A cortiça é um material de origem vegetal, impermeável, isolante térmico e acústico e resistente ao fogo, tornando-se, por isso, um material emergente na arquitectura. Portugal é responsável por 50% da produção mundial de cortiça, pelo que a utilização deste material em projectos portugueses poderá ser uma opção sustentável. Ainda assim, a sua exploração desmedida poderá pôr em causa a própria produção, comprometer os ecossistemas e, tornar-se, por isso, insustentável.

É necessário ter em conta toda a cadeia de valor do material. Aos efeitos no meio ambiente da extração, transformação de matérias-primas com a finalidade de criar novos materiais, aplicação, manutenção dos mesmos e, eventual, eliminação/reciclagem, acresce ainda, o transporte da matéria-prima do local de extração até ao local de produção e posteriormente até à obra. Deverá por isso, dar-se preferência a materiais:

  • Extraídos/produzidos nas proximidades;
  • Reciclados, que promovam a circularidade;
  • Certificados e/ou homologados.
  • Mais que materiais sustentáveis, deverão utilizar-se materiais e soluções construtivas eficientes.

Neste contexto, tem-se assistido a uma maior preocupação, não tanto na escolha dos materiais “per se”, mas mais ao nível das soluções construtivas, com vista à eficiência energética tais como:

  • O dimensionamento dos vãos para minimizar a necessidade de sistemas de climatização;
  • A preferência por vãos de vidro duplo com corte térmico que conservam a energia e a reduzem em 40/60% a transmissão térmica e, por fim, a colocação de painéis solares térmicos (que captam energia solar para aquecimento de água) e painéis solares fotovoltaicos (que convertem a luz do Sol em energia eléctrica), entre outros.

 

 

arquitectura sustentável - Escola Secundária Lycee Schorge - Francis Kéré

Projeto: Escola Secundária Lycee Schorge em Koudougou, Burkina Faso | Arquitecto: Francis Keré

 

 

 Que arquiteto(s) têm vindo a desenvolver trabalho na área da arquitectura sustentável e que são uma referência para ti?

Gostaria de referenciar o trabalho do arquitecto Francis Kéré. Ainda que o tipo de construção não se aplique ao contexto português, as premissas pelas quais projeta são exemplares e poderiam/podem ser aplicadas a todos os projetos de arquitectura.

Francis Kéré nasceu no Burkina Faso, onde estudou e trabalhou em carpintaria. Beneficiando de uma bolsa de estudo, formou-se como arquiteto na Universidade Técnica de Berlim (Alemanha) e fundou o gabinete com nome próprio “Kéré Architecture”, na mesma cidade. A sua primeira obra construída, a escola primária de Gando (Burkina Faso), de onde é natural, valeu-lhe o Prémio Aga Khan de Arquitetura. No seu gabinete desenvolve projectos direcionados à responsabilidade social, aliando a técnica da Arquitetura Sustentável ao trabalho com as comunidades.

As suas obras são localizadas em zonas remotas, marcadas pela escassez de materiais e recursos, e onde os membros da própria comunidade assumem o papel de construtores. Como a mão-de-obra não é qualificada são utilizadas técnicas locais.

Kéré não pretende impor uma mudança no modo de vida das pessoas pela arquitectura, pelo contrário, promove uma ligação com as comunidades que vão usufruir do espaço, de modo a entender e valorizar as suas culturas e tradições, através da arquitectura. Possibilitando que os residentes nestas zonas sintam que fazem parte da obra, Kéré cria, assim, uma arquitetura participativa e utiliza-a de forma pedagógica.

Destaco o projecto da Escola Secundária Lycee Schorge (2016) em Koudougou (Burkina Faso) como um exemplo de arquitetura sustentável a seguir pois valoriza igualmente as 3 vertentes (ambiental, social e económica). Neste projeto, além do método de trabalho descrito acima, o arquitecto criou uma solução para o arrefecimento da temperatura no interior do edifício, colocando baldes com água junto à fachada que, através da acção do vento, encaminhado pela estrutura para o interior, arrefece o edifício.

No ano passado (2019) Kéré esteve presente na Exponor (Matosinhos) para a inauguração da sua exposição e, em declaração à Agência Lusa, afirmou:

A arquitetura precisa de ter em consideração todas as mudanças que estamos a passar, quer mudanças climáticas, mas também de limitação de recursos, para que não traga problemas ambientais.

À frase de Kéré adiciono, ainda, a necessidade da arquitetura deixar de ser um “luxo” e passar, tal como Kéré a pratica, a envolver todos os intervenientes. Só se atingirá a sustentabilidade necessária a uma arquitetura sustentável quando esta for aplicada globalmente.

 

Dê-nos um exemplo de um edifício que se enquadre no âmbito da arquitectura sustentável e que seja uma referência para si. Em que se destaca?

O do Eco-turismo “Rio do Prado” desenvolvido pelo arquiteto Sousa Santos, localizado na zona do Arelho é para mim um projeto de referência na área da Sustentabilidade. Talvez por ser um projeto na zona da qual sou natural (Arelho) e por, sem comprometer a envolvente natural, se conseguir destacar. Como diz o proprietário (Telmo Faria) “tirar partido dele [ecossistema da Lagoa de Óbidos] e não fragilizá-lo”.

Este projeto de hotelaria responde a várias questões relativas à sustentabilidade que deveriam ser replicadas de forma ampla ao sector da habitação, daí termos muito a aprender com este projeto.

Destaco algumas soluções implementadas neste que o tornam, para mim, uma referência:

  • As unidades (quartos) encontram-se semi-enterradas o que resulta numa redução da amplitude térmica no seu interior;
  • As águas da chuva (águas azuis) são armazenadas em reservatórios e utilizadas, posteriormente, na rega;
  • As águas domésticas provenientes dos banhos (águas cinzentas) são reutilizadas nas descargas do autoclismo e, só depois encaminhadas para a rede de esgotos;
  • Através de soluções de geotermia (captação de energia existente nos solos), da colocação de painéis fotovoltaicos e solares-térmicos conseguem melhorar a eficiência energética;
  • Ao nível da decoração também há uma preocupação de utilização de materiais nacionais; de reutilização de materiais sobrantes da obra que, de outra forma, seriam desperdiçados; de, através de up-cycling, aproveitar restos de materiais das indústrias portuguesas para criar peças de mobiliário presentes no empreendimento.

Embora nunca tenha estado hospedada no espaço, já o visitei e recomendo-o. Poderão ler mais informações sobre as práticas do Eco-Turismo Rio do Prado no separador “Sustentabilidade” na página oficial. http://riodoprado.pt/sustentabilidade/.

 

arquitectura sustentável - rio do prado

Projeto: Rio do Prado | Arquitecto Sousa Santos

 

Hoje em dia os seus clientes já valorizam estas questões? O que mais os preocupa?

A sustentabilidade é gradualmente uma preocupação transversal a todas as áreas de negócio. Acredito que na arquitetura não é diferente, contudo como referi acima há ainda alguns desafios a ultrapassar.

Aos desafios identificados, acresce o facto de, muitas vezes, o cliente não ser o utilizador final (no caso de um promotor imobiliário). Adicionalmente, as soluções são, frequentemente, inacessíveis monetariamente, só estando disponíveis para um público muito específico.

Dos anos que tenho de profissão e nos gabinetes onde trabalhei, a percepção que tenho é que as preocupações dos clientes quando procuram um arquitecto são essencialmente de ordem estética, ou de obter licenças conforme as normas camarárias, procurando, sempre, um baixo investimento (tanto na remuneração do próprio arquiteto como com gastos inerentes ao projeto de arquitectura). Contudo, ainda que sejam uma minoria, acredito que clientes com essas preocupações se dirijam a gabinetes “especializados”.

 

Sente que a arquitectura sustentável é uma moda ou é uma tendência que veio para ficar?

Acredito que a sustentabilidade seja uma tendência que veio para ficar e o sector da arquitectura não será diferente. A prática da arquitetura sustentável depende da acção de vários grupos/pessoas. Alguns destes grupos já estão a trabalhar neste sentido, sendo relevante mencionar os seguintes desenvolvimentos:

  • O Green Deal – Pacto Ecológico Europeu é um pacote de medidas da UE que visa promover uma economia mais sustentável e contempla, entre outros, a criação de um fundo para o financiamento de projectos sustentáveis;
  • Esse financiamento permitirá aos governos investir em programas como, em Portugal o “Programa de Apoio a Edifícios mais Sustentáveis”;
  • As câmaras municipais têm um papel fundamental no planeamento de soluções integradas (arquitectura, saneamento, transportes, urbanismo) detalhadas nos respectivos Planos Diretores Municipais (PDM).
  • Os promotores imobiliários, ao procurarem soluções mais sustentáveis, indubitavelmente, mostram que o utilizador final também está cada vez mais sensibilizado para estas questões.

Ainda que se verifique uma preocupação crescente, é importante referir que:

  • Financeiramente, o público geral não tem capital para investir em soluções de arquitectura sustentável, sendo esta, ainda, um produto de “nicho”;
  • A aplicabilidade destas soluções cinge-se, na sua maioria, a moradias e/ou construção nova, excluindo assim, grande parte da população que vive em apartamentos (em edifícios – nas zonas de Lisboa e do Porto – com mais de 40 anos);
  • Adicionalmente, o termo “arquitectura sustentável” ou “arquitectura verde” é, também, cada vez mais utilizado como ferramenta de marketing (greenwashing).

A título de conclusão e de reflexão futura refiro que o “Programa de Apoio a Edifícios mais Sustentáveis” mencionado acima, “tem como objetivo o financiamento de medidas que promovam a reabilitação, a descarbonização, a eficiência energética, a eficiência hídrica e a economia circular em edifícios, contribuindo para a melhoria do desempenho energético e ambiental dos edifícios.”

Concluindo, este programa refere “eficiência hídrica” algo que, até agora, tem sido esquecido (será?) em detrimento da “eficiência energética”. Numa altura em que a água começa a ser negociada no mercado de futuros, para quando será implementada uma estratégia circular hídrica dentro das nossas casas?

Se pensarmos que, no mínimo, são gastos 3Litros por cada descarga de autoclismo, se um casal fizer cerca de 10 descargas diárias, são, por dia, utilizados 30Litros de água potável em descargas. Ao final de um mês são 900L e ao final de um ano serão 10 800Litros. Se este número já é assustador, torna-se ainda mais quando considerada toda a população portuguesa. É, por isso, essencial e urgente criar sistemas de reutilização da água doméstica (dos lavatórios, duches e/ou banheiras) para as descargas do autoclismo e somente após esta utilização, encaminhadas para a rede de esgotos.

A arquitectura tem, por tudo isto, um papel preponderante na estratégia para um mundo mais sustentável. Se esta ainda não for uma preocupação individual, tornar-se-á obrigatoriamente no futuro, pois o nosso planeta não conseguirá suportar o impacto das nossas acções actuais!

 

Joana dos Reis Silva 

É arquitecta, tem 28 anos e é natural das Caldas Rainha. Desde muito cedo que se preocupa com as alterações climáticas e se interessa por descobrir propostas para o combate às mesmas, tentando incorporá-las no seu estilo de vida.

Formada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (2010-2016), a sua Tese Final de Mestrado, intitulada “O Equipamento como motor de regeneração urbana da cidade de Luanda – O Centro Cultural Sustentável de Luanda”, resulta desta vontade de aliar a arquitetura à sustentabilidade.

Ao longo dos últimos três anos (2017-2020), trabalhou na sua área de formação, tornando-se Arquitecta inscrita na Ordem dos Arquitectos. Devido à pandemia ficou desempregada e aproveitou a baixa do mercado para investir na área pela qual tem paixão, inscrevendo-se na Pós-Graduação em “Gestão da Sustentabilidade” no ISEG.

Tendo o objetivo de construir a sua carreira na direção da Sustentabilidade, acredita que a Pós-graduação, aliada à sua formação de base, lhe permitirá ter um posicionamento diferenciador no mercado, permitindo mesmo prestar consultoria em projectos de arquitetura sustentável.

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Temos muito a aprender com a Inês Ribeiro em Sustentabilidade. Pela formação que tem e pela empresa que criou em parceria, mas essencialmente pelos projetos em que já participou.

 

 

És co-fundadora da BoG – Environmental Consulting. O que a motivou a lançar o projeto? Que problemas ajudam as empresas a resolver na área da sustentabilidade?

A BoG [de Back On Green] é um sonho partilhado, daqueles que nem sabia bem que tinha. Embora com poucos anos no mundo trabalho, após ter a oportunidade de conhecer e participar em alguns projetos nacionais e internacionais e de ficar muitas vezes com a perceção de não me identificar na totalidade com a forma como as coisas aconteciam, uma amiga, a Débora Carneiro, que à data era também ex-colega de trabalho, desafiou-me a começarmos uma coisa nossa, à nossa imagem… e disse-lhe logo que sim.

Assim, de uma vontade enorme de fazer as coisas de forma diferente, com que nos identifiquemos, que reflitam o que somos, os nossos valores e as coisas em que acreditamos, nasceu a BoG, oficialmente a 3 de abril de 2019.

Somos uma empresa de consultoria e prestação de serviços cujo propósito passa por conceber soluções técnicas adequadas para problemas complexos nas áreas de ambiente, sustentabilidade e economia circular. Trabalhamos com o setor privado e também para um conjunto de instituições públicas no mercado nacional e em diversos mercados internacionais, como Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, entre outros.

 

De todas as iniciativas levadas a cabo na BoG, qual destacas?

A sustentabilidade é mesmo um tema cada vez mais em voga, no entanto, em determinados contextos, como as cidades e territórios, temos verificado que para a gestão de topo por vezes torna-se difícil lidar com a complexidade do tema, com as diversas agendas e compromissos, com a articulação de todos os fatores numa perspetiva de curto, médio e longo prazo, assim como com a avaliação da sustentabilidade das ações e o impacte na qualidade de vida da população.

São necessárias ferramentas que monitorizem, avaliem e, mais do que isso, que apoiem a gestão. A BoG tem vindo a desenvolver a aplicação em contexto nacional dessas ferramentas, nas várias fases do processo.

Temos verificado também, de forma transversal às nossas várias áreas de trabalho, a existência de uma dificuldade de comunicação dos nossos clientes para com o seu público alvo das mais valias associadas a determinado projeto. Para colmatar essa dificuldade, estamos a desenvolver uma matriz de comunicação, que fornecemos aos clientes no contexto dos projetos, que facilite a transmissão de informação de forma mais eficaz e clara para todos.

 

Pertences à Smart Waste Portugal Young Professionals.

Qual o propósito deste movimento? Quais as suas principais iniciativas e metas?

O grupo de trabalho SWYP é um fórum para jovens profissionais, até 35 anos, com atividade profissional e/ou interesse no setor dos resíduos. O propósito prende-se com criar redes de trabalho e promover a partilha de conhecimento entre jovens que vejam nos resíduos importantes recursos económicos e sociais, apoiando o desenvolvimento das nossas carreiras e incentivando a troca de experiências.

Organizamo-nos em quatro áreas distintas para a concretização das atividades: educação, investigação & inovação, comunicação e marketing do grupo, mentoria e desenvolvimento de carreira. Todos os jovens com interesse na temática são bem-vindos!

 

sustentabilidade - 3 pilares

 

Estiveste em S. Tomé e Príncipe através da “TESE – Associação para o Desenvolvimento” a desenvolver um projeto de Sustentabilidade e Economia na Gestão de Resíduos.

Em que consistiu este projeto?

A TESE está em São Tomé e Príncipe há já alguns anos e pelo menos desde 2013 que trabalha no setor dos resíduos, com projetos cofinanciados pela União Europeia e Instituto Camões. Tive a oportunidade de colaborar no “+Valores | Sustentabilidade e Economia Verde na Gestão de Resíduos”, um projeto com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável e inclusivo, o reforço da boa governação e a redução das desigualdades socioeconómicas.

Era um projeto ambicioso, sobretudo porque não consistia apenas em “dar” bens materiais ou replicar soluções anteriormente aplicadas noutros contextos, mas sim em criar ferramentas de base e estratégias que permitissem ao país melhorar a sua gestão de resíduos e, consequentemente, a qualidade de vida da população, mesmo após a conclusão das atividades.

Claro que não foi tudo perfeito, mas senti sempre que passos importantes estavam a ser dados. A verdade é que temos de começar por algum lado, mas as verdadeiras mudanças demoram muito tempo a acontecer… basta olhar para o exemplo português: em 2000, a Sociedade Ponto Verde lançava um anúncio televisivo com o mote “Se o Gervásio consegue, tu também conseguirás”. Quase em 2021, continuamos longe do necessário. O problema é que STP não tem 20 anos, mas isso daria outra conversa!

O que aprendeste nesta passagem por S. Tomé relativamente à sustentabilidade?

Esta não é fácil, mas vou tentar resumir em três coisas:

  1. Consolidar a certeza de que a sustentabilidade não se pode individualizar em cada um dos seus pilares, porque sobretudo nestes contextos o benefício social e ambiental é ainda mais indissociável, quer um do outro, quer da questão económica;
  2. A convicção de que as pequenas coisas fazem a diferença no dia-a-dia e que soluções simples podem ser implementadas com um benefício enorme para a população;
  3. Por fim, foi a perceção de que eu não estava a fazer o suficiente – lá nem sempre era fácil, mas num país como Portugal, onde é tão fácil fazermos escolhas melhores, senti que tinha obrigação de fazer mais. Assim, quando voltei, a sustentabilidade passou a fazer ainda mais parte da minha vida e passei a fazer escolhas mais conscientes. A nível profissional, a minha passagem por STP levou a que me inscrevesse na Pós-graduação em Gestão da Sustentabilidade, para conseguir direcionar a minha atividade também para esse campo.

Para quem se quer iniciar e aprender mais sobre sustentabilidade, que livros recomendas?

Deixo dois! O primeiro é o “Factfulness”, do Hans Rosling, que interpreto como uma mensagem de esperança, que nos mostra que o mundo está melhor do que pensamos.

O segundo é o “Desafio Zero”, da Eunice Maia, fundadora da loja-projeto Maria Granel. A adoção do conceito de “zero waste” é uma necessidade, mas pode ser assustador quando não sabemos bem por onde começar e achamos que temos de fazer “tudo” ou, caso contrário, não valerá a pena. E isso não é verdade – todos os gestos contam e o livro é um ótimo ponto de partida para uma presença com menor impacte negativo no planeta.

Maria Inês Ribeiro

29 anos, apaixonada por livros, viagens e humor e a tentar todos os dias viver uma vida com a menor pegada possível. Mestre em Engenharia do Ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e pós-graduada em Gestão da Sustentabilidade pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, tem participado nos últimos cinco anos em diversos projetos na área do ambiente, com destaque para as áreas de Estudos Ambientais, Resíduos e Sensibilização, em Portugal e nos PALOP.

Descobre os projetos de consultoria da Inês em www.bog-ec.pt

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