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Faltam-nos as palavras para descrever esta conversa com a Catarina Vieira, fundadora do Chão do Rio – Turismo de Aldeia. Um projeto que nasce da vontade da Catarina e o companheiro plantarem árvores, onde podemos enumerar uma lista infinita de ações sustentáveis para preservar e potenciar a sua localização e onde sentimos o amor pelo projeto, natureza e hóspedes em cada palavra da Catarina, que nos narra uma história de encantar e encantada, tal como Chão do Rio é. 

 

Como nos descreve o Turismo de Aldeia Chão do Rio? 

Localizado no sopé da Serra da Estrela, na aldeia de Travancinha, o Chão do Rio – turismo de aldeia, oferece uma experiência de alojamento sustentável, certificada pela Biosphere Responsible Tourism

Na sua quinta de 8 hectares, os seus hóspedes são desafiados para uma experiência de Slow Tourism, de grande contacto com a natureza e a vida rural. As confortáveis casas em pedra com telhados decorados com giestas estão dispostas em torno da piscina biológica, construída para se assemelhar às lagoas da serra da Estrela. Os géneros para o pequeno-almoço são servidos em cestos e incluem especialidades regionais. Os seus hóspedes são encorajados a explorar os trilhos das proximidades a pé ou nas bicicletas disponíveis gratuitamente. As crianças podem divertir-se com carros-de-mão, apanhar os ovos do galinheiro amovível ou apenas brincar livremente e em segurança. 

As Casas Churra, Cotovia, Loba, Ribeira e Pastor – todas com 1 quarto – permitem acomodar 4 pessoas. A Casa da Cumeada – 2 quartos e capacidade para 6 pessoas – está um pouco mais distante das restantes casas, proporcionando maior privacidade. A nova Fraga & Urze é um edifício com duas casas, a Urze, com tipologia T1 e preparada para hóspedes com mobilidade condicionada e a Fraga, com tipologia T2. Estas duas casas podem funcionar como uma só casa e permitem acomodar 8 pessoas. 

A decoração das casas é simples e confortável. Todas as casas possuem alpendre onde é possível desfrutar de refeições ao ar livre ou reparadoras sestas na rede. O Chão do Rio oferece ainda acesso a bicicletas, trilho interno sinalizado, carros-de-mão, churrasqueiras, forno de lenha, lareira ao ar livre, parque infantil, horta, galinheiro e piscina biológica. São permitidos animais de estimação mediante custo adicional.

 

A nossa principal motivação era a compra de um terreno onde pudéssemos plantar árvores, queríamos deixar um legado para as gerações futuras, embora nessa altura ainda não tivéssemos as nossas filhas

Como surgiu a ideia do Chão do Rio? 

O Chão do Rio, mais do que uma ideia, foi um processo de evolução e adaptação às circunstâncias que a vida nos foi apresentando e a um enorme desejo de enraizamento e contacto com a Natureza

Chão do Rio é o nome de registo da propriedade onde está implantado o Chão do Rio – Turismo de Aldeia. Em 2001, eu e o meu companheiro adquirimos um terreno na aldeia de Travancinha, concelho de Seia, onde existia uma ruína de um antigo abrigo de animais, com potencial para recuperação para uma segunda habitação. No entanto, nessa altura, a nossa principal motivação era a compra de um terreno onde pudéssemos plantar árvores, queríamos deixar um legado para as gerações futuras, embora nessa altura ainda não tivéssemos as nossas filhas. Aquela era uma região onde gostávamos de fazer caminhadas (Serra da Estrela) e, por coincidência, foi ali que descobrimos o terreno que desejávamos comprar. No início, íamos lá todas as semanas (vindos de Aveiro), apenas para limpar o terreno, plantar árvores e descarregar do stress da semana. Era uma relação com a terra muito física. Ao fim do dia, saíamos dali cansados, mas felizes. Mais tarde viríamos a recuperar a ruína e transformá-la numa casa de fim-de-semana apenas para nós, e ali passámos a ficar aos fins-de-semana.

Já em 2006, a nossa vida profissional complicou-se e tornou-se difícil suportar os custos de manutenção de um terreno de 8 hectares apenas para nosso deleite. Mas, foi precisamente deste momento de aperto que começou a surgir a ideia de transformar aquele nosso refúgio num refúgio partilhado. Já com essa ideia em mente, fui fazer uma pós-graduação na área do turismo na minha antiga escola de gestão do Porto (a FEP) e numa disciplina de estratégia construí o plano de negócios do então sonhado “Chão do Rio – Estância Rural”. Em rigor, já ali estava quase tudo o que é hoje, mas então era só uma ideia. De qualquer modo, nesse curso percebi que com pouco investimento era possível testar se o nosso Chão do Rio atraia outras pessoas para além de nós. Foi por isso que, em 2010, o Chão do Rio começou a receber hóspedes, sob a forma de alojamento local, nessa altura uma família alugava uma quinta inteira de 8 hectares. Rapidamente percebemos que Travancinha, também para outros, era uma boa base para visitar o destino turístico Serra da Estrela e o desejo de ir mais além instalou-se.

Estávamos em 2011 quando contactámos a ADRUSE (Gabinete de Apoio à Ação Local da região) e descobrimos que, daí a 15 dias, iria acabar talvez a nossa grande oportunidade de fazer crescer o Chão do Rio. Nesse momento, aquele plano de negócios do Chão do Rio – Estância Rural, bem como a boa vontade de todos os que acreditaram na nossa capacidade de realização, serviram para completar uma candidatura ao antigo PRODER em apenas 15 dias. Quase um ano depois soubemos que a nossa candidatura havia sido aprovada.

Em 2012 começámos a construção e em 1/8/2014 começámos a comercializar o Chão do Rio no booking.com. 

 

Onde se inspiraram para as casas em pedra, com telhados de colmo? 

Os nossos telhados são decorados com giestas, tal como faziam os pastores da região da Serra da Estrela (ainda visível no vale do Zézere e Casais de Folgosinho). A construção era feita com o que existia no local e que a natureza dava e assim é com o Chão do Rio. Sendo a cultura pastorícia a grande referência do nosso conceito, os telhados surgiram como uma forma de homenagear esta cultura que, para nós, é um excelente exemplo de como é possível viver em harmonia com a natureza.

 

 

As tradições locais e a herança cultural estão presentes no espaço? 

Sim, não só ao nível da arquitetura, mas também em alguns produtos locais que integram os nossos cabazes de pequeno-almoço (como o requeijão, o queijo velho, o bolo negro de loriga, o mel artesanal…), no fomento do contacto com os animais sempre presentes na quinta como as duas ovelhas, as galinhas ou a sugestão de recolha dos produtos da época na nossa horta e árvores de fruto, ou pelos contactos com o rebanho do pastor da aldeia que visita o nosso espaço.

 

O que os vossos hóspedes mais valorizam na experiência? 

O encantamento muitas vezes acontece no primeiro olhar, muitos relatam a sensação de entrar numa aldeia de fadas, que predispõe ao espanto. A natureza presente de forma não artificializada, faz outra parte importante do trabalho, ao variar com as estações e propiciar diferentes sensações consoante a época. Finalmente, a equipa sempre disponível e genuinamente envolvida, de uma forma simples contribui para um momento memorável. Depois há momentos especiais, como o facto de a chegada do pão quente acontecer pelas 5 da tarde, pelo momento do check-in, estando o cabaz de pequeno-almoço do dia seguinte já disponível na casa, que propicia logo um dos pontos altos: o lanche.

 

Uma piscina biológica é a recriação artificial de um ecossistema natural. É um lago para banhos, onde a qualidade da água se obtém através de jardins aquáticos com plantas purificadoras

 

Dispõem de uma piscina biológica. Podem explicar-nos um pouco melhor no que consiste? 

Uma piscina biológica é a recriação artificial de um ecossistema natural. É um lago para banhos, onde a qualidade da água se obtém através de jardins aquáticos com plantas purificadoras, de um maior volume de água por banhista do que seria numa piscina convencional e através a circulação permanente da água. 

Tratando-se de uma água não tratada, a nossa ação é sempre indireta, favorecendo a saúde das plantas, para que estas assegurem a qualidade da água. E a qualidade vê-se bem pelas inúmeras libelinhas que ali nascem. Como onde há água pura, há vida, à piscina são atraídos muitos seres que contribuem para o equilíbrio do ecossistema, sendo os mais visíveis os anfíbios, como as rãs ou tritões.

 

Como incorporam a sustentabilidade no vosso espaço? 

A nossa política de sustentabilidade define medidas em diversas áreas:

Promovemos a biodiversidade…

Estamos a recuperar um bosque de folhosas na nossa quinta, plantando bolotas de Carvalhos autóctones;

Criámos corredores ecológicos para a circulação das espécies selvagens, através de espécies arbustivas locais;

Criámos zonas húmidas como o nosso “Brejo das Libelinhas” e a nossa Piscina Biológica;

Criámos zonas abrigo para animais selvagens como coelhos e lebres;

Recuperámos a frente ribeirinha da nossa propriedade.

Incentivamos experiências amigas do ambiente…

Os nossos hóspedes recebem diversas propostas de experiências através de parceiros locais, como massagens à sombra de carvalhos, workshops de fotografia, Caminhadas na Serra, Passeios a Cavalo e passeios no rio em Stand Up Paddle Board.

Disponibilizamos bicicletas de utilização gratuita para passear na propriedade ou na aldeia de Travancinha;

Criámos um trilho pedestre por onde os nossos hóspedes são convidados a caminhar, despertando para a magia da natureza;

As crianças podem apanhar ovos do galinheiro, legumes da nossa horta biológica, dar de comer às ovelhas “Flor” e “Estrela” ou divertir-se em passeios de carro-de-mão;

Os mergulhos entre nenúfares, libelinhas e rãs na nossa piscina biológica são inesquecíveis;

As zonas de piquenique, o forno de lenha e as churrasqueiras, transformam as refeições em saborosos momentos lúdicos de comunhão com a natureza;

Convidamos os nossos hóspedes a explorar a natureza em todos momentos, entregando-lhes uma lanterna para caminhadas noturnas.

Divulgamos o património local e contribuímos para o desenvolvimento da região…

O nosso cabaz de pequeno-almoço inclui uma grande variedade de produtos endógenos;

Na nossa loja de recordações vendemos artesanato local;

Na nossa receção são prestadas informações sobre a região;

Participamos ativamente na divulgação da Aldeia de Travancinha através de reportagens fotográficas profissionais dedicadas aos seus pontos de interesse turístico;

Os nossos hóspedes são convidados a conhecer e consumir nos estabelecimentos da aldeia e localidades vizinhas;

Integramos uma rede de parceiros locais que oferece experiências de animação únicas, abdicando de quaisquer comissões de intermediação…

Em momentos de renovação dos nossos equipamentos, doamos materiais em bom estado de conservação a instituições de cariz social localizadas nas proximidades do Chão do Rio.

Reduzimos os impactos ambientais mais adversos…

As casas do Chão do Rio confundem-se com a paisagem natural pela utilização de telhados de origem vegetal, construídos com recurso a materiais provenientes da limpeza dos terrenos envolventes.

todas as construções foram realizadas com materiais sustentáveis, tais como como pedra proveniente de demolições locais e madeira;

O aquecimento da água é realizado através de painéis solares;

Os nossos esgotos estão ligados à estação pública de tratamento de águas residuais;

O nosso aquecimento é realizado através de recuperadores de calor a lenha;

Reciclamos e incentivamos à reciclagem em cada uma das nossas casas, através da colocação de eco-pontos;

A iluminação é efetuada com lâmpadas Led;

A iluminação exterior é reduzida ao mínimo para evitar o consumo energético e a poluição luminosa;

O nosso “jardim” é um prado espontâneo que não carece de rega;

O nosso galinheiro é móvel, evitando a desertificação do solo e contribuindo para o enriquecimento natural da alimentação das nossas galinhas;

A manutenção dos espaços exteriores é realizada com recurso a meios manuais e mecânicos, nunca sendo utilizados pesticidas;

A nossa piscina principal é biológica, sendo o seu equilíbrio assegurado através da recriação de um ecossistema natural, onde as plantas garantem a purificação da água;

As nossas aménities são sabonetes artesanais produzidos na região, recorrendo a matérias primas locais;

O papel higiénico e os guardanapos são 100% reciclados e de origem nacional;

Os nossos hóspedes tem a opção de não trocar as toalhas diariamente, por forma a ajudarem-nos na redução do consumo de água e detergentes;

Reduzimos ao máximo a impressão de materiais publicitários em suporte de papel, privilegiando outros meios de divulgação de menor impacto ambiental;

Um fator de decisão essencial nos nossos consumos é o número de quilómetros percorridos. Sempre que possível, compramos localmente.

 

A entrega de pão fresco, típico da zona de Seia, é uma das experiências que apresentam. De onde veio a ideia?

Não é algo inventado por nós, é uma simples e feliz coincidência por nós aproveitada: a Padaria da Aldeia (Padaria Henrique Mendes) confeciona o pão à tarde e faz entregas ao domicílio por volta da hora do lanche. Trata-se de um costume da aldeia, muito feliz para nós e mais um exemplo de que as experiências são tão mais autênticas, quanto maior a ligação aos costumes e cultura locais.

 

Cerca de metade da área total da propriedade do Chão do Rio (4 hectares), constitui uma área de reserva de natureza, onde estamos a recuperar uma Floresta autóctone.

 

O vosso cliente tipo é português ou internacional? O respeito pelo ambiente é fator crítico de escolha?

Os nossos hóspedes são desde o início, na sua maioria, provenientes do mercado nacional, maioritariamente das cidades de Lisboa e Porto. Na sua maioria, são hóspedes com uma grande sensibilidade para as questões ambientais e fascinados pela natureza. Mas também são famílias onde mais que o fascínio pela natureza, a sua falta os atrai até nós. Todos, em maior ou menor grau, de forma consciente ou inconsciente, necessitamos de um contacto com o meio natural não possível nas cidades e daí a atração pelo nosso espaço.

 

 

Têm ações, ou planos, relacionados com a atuação sustentável que gostassem de destacar?  

Sim, um dos nossos projetos mais acarinhados é a nossa “Floresta do Futuro”. Cerca de metade da área total da propriedade do Chão do Rio (4 hectares), constitui uma área de reserva de natureza, onde estamos a recuperar uma Floresta autóctone. Esta área era anteriormente ocupada por uma mata de pinheiro manso, que o fogo em Outubro 2017 destruiu completamente. Desde então este espaço tem sido semeado e plantado com uma floresta autóctone, com o apoio de escolas, do Centro de Interpretação da Serra da Estrela e da Casa Santa Isabel. Este espaço que apelidamos Floresta do Futuro, por ser uma floresta para quem vem depois de nós, é pretexto de encontro e reflexão alargada, no nosso “dia aberto, um dia pela Floresta”, um evento aberto à comunidade por altura do aniversário dos fogos. Este ano a pandemia suspendeu o evento que pretendemos retomar já no próximo ano.

Conhece e encante-te com o Chão do Rio em www.chaodorio.pt

Catarina Vieira 

Natural de Aveiro, Catarina Vieira licenciou-se em Gestão na Faculdade de Economia do Porto, cedo viria a assumir cargos de administração em empresas do sector da construção. Mas a crise no sector e a deteção de oportunidades na área do turismo, levou-a, em 2008, a atualizar a sua formação académica através de um mestrado em Gestão e Planeamento em Turismo na Universidade de Aveiro. A partir do estudo exploratório que realizou na região da Serra da Estrela, durante a tese do seu mestrado, em 2010, viria a escrever alguns artigos científicos em coautoria, na temática do Desenvolvimento pela ligação entre o turismo rural e os produtos endógenos. Em 2012, foi também na Serra da Estrela que viria a concretizar a sua vocação empreendedora, integrando a paixão pela natureza, a vontade de fazer a diferença e os conhecimentos académicos adquiridos. O Chão do Rio – turismo de aldeia, foi o sonho concretizado através de uma unidade de turismo rural de pequena escala, localizada na aldeia de Travancinha, no sopé da Serra da Estrela! Desde a sua criação, o Chão do Rio tem desenvolvido um reconhecido trabalho em prol do Turismo Sustentável, tendo se tornado na primeira Unidade de Turismo Rural em Portugal a receber a Certificação “Biosphere Sustainable Tourism” em 2018 e foi vencedor dos Prémios AHRESP 2019 na Categoria Sustentabilidade Ambiental. 

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