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Patrícia Pereira, fundadora da Pera Lima, conta-nos como cresceu o seu projeto de moda comprometido com questões de sustentabilidade ambiental e que está ligado a memórias de infância.

Como surgiu e o que consiste a Pera Lima?

A Pera Lima surge da vontade de voltar a pintar, depois de ter voltado repentinamente de Moçambique, por causa da pandemia. Deixei o trabalho que desenvolvi durante 10 anos em Moçambique, na área têxtil, para voltar ao meu país de origem, Portugal. Esta foi a condição que me levou a reencontrar com minha área de formação: a pintura.

No entanto, o projeto que pretendia desenvolver era uma pintura que pudesse ser vestida. Uma pintura que não se limitasse a estar pendurada numa parede, uma pintura que pudesse não apenas tocar e sensibilizar mas também com a qual as pessoas se pudessem identificar para além de um exercício de pura contemplação.

Sempre acreditei no potencial do diálogo, no poder de comunicação da pintura, sempre considerei que a pintura deveria existir com um propósito , neste caso contar uma história. 

Não queria criar algo que falasse apenas consigo mesmo ou com os seus semelhantes, que fosse auto-referencial; que a linha não fosse apenas uma linha e a mancha apenas uma mancha, mas sim um esboço de uma história, uma memória, uma temática terrena, simples e humana e que a sua razão de ser pudesse ir para além da sua mera condição estética.

Neste sentido, e porque o projecto surge e desenvolve-se inicialmente em torno da pintura, ele acaba por ter menos a ver com fazer moda, e mais com a criação de uma arte vestível. É em torno desta vontade que surge a Pera Lima.

Produzem vestuário contemporâneo consciente, empenhado em questões ambientais e de sustentabilidade. De que forma contribuem para diminui a pegada ecológica?

Era claro, desde o início,  que só fazia sentido trazer uma nova marca para o mercado da indústria têxtil se ela fosse seriamente comprometida com questões de sustentabilidade ambiental.

Fazer a qualquer custo, parecia ter um retorno muito menos positivo. Todos os materiais e procedimentos que escolhemos são regidos por estes critérios de respeito ambiental, por isso só  trabalhamos com tecidos certificados, com menor impacto ambiental, como é o caso do algodão orgânico e dos tecidos reciclados e priorizamos uma gestão responsável e sustentável dos recursos naturais. 

 

De que forma a produção dos produtos é sustentável? Não em relação ao produto final, mas sim em relação à produção completa do produto.

Acreditamos que desenvolver um produto sustentável tem que cumprir três requisitos e que estes têm que estar articulados: um produto que respeite o ambiente, resistência e qualidade que fazem com que o produto possa ter um ciclo de vida mais longo, que se traduz, idealmente, numa redução gradual do desperdício e do impacto ambiental. O nosso objetivo é posicionar a nossa marca e os nossos produtos dentro de um discurso de consumo mais consciente.

Além disso, a sustentabilidade é igualmente importante a nível humano, pautamo-nos pelo respeito e pela promoção dos direitos humanos e trabalhistas, dignificando o trabalho, segundo os parâmetros do Comércio Justo. Neste seguimento, trabalhamos preferencialmente com produção e matérias-primas nacionais, pois encaramos a responsabilidade económica como um compromisso local e, para representar esta visão, recorremos a um ditado Africano: “se num lugar te deitas, acordas e dele vives, é a ele que deves devolver e lhe deves a vida”.

Trabalham com materiais 100 % portugueses. Sente que os clientes valorizam?

 Sim, o cliente da Pera Lima é um cliente com um perfil sensível à arte, só comprometido com questões ambientais também com o significado do ato da sua compra.

 

Lançaram recentemente uma coleção que está muito ligada com a natureza e a infância. Fale-nos um pouco sobre isso. 

Lançamos a nossa marca com três estampagens, que as consideramos cada uma delas coleções cápsulas.

Estas coleções são memórias visuais de três histórias que resultam de um exercício de regresso à infância, uma ode à inocência, à doçura e simplicidade com que as crianças sentem e experienciam o mundo, resgatando memórias sensoriais dos lugares onde cresci. Procurei dar forma a sensações tão intangíveis como doces, como o cheiro das amoras, a brisa do mar, a chegada das andorinhas anunciando a Primavera, ou ainda os utópicos e inocentes intentos de salvar os animais ou de construção de uma casa na árvore.

 Esta viagem foi feita através de um retorno aos processos tradicionais, explorando diferentes linguagens plásticas como o desenho, a pintura e a aguarela, cujos resultados foram posteriormente estampados digitalmente em média e larga escala. 

Quais os próximos passos para este projeto?

Neste momento estamos a desenhar as próximas coleções. Estamos a estruturar parcerias com outros criativos, é nesta forma de trabalhar que acreditamos para o futuro da marca. Estamos a trabalhar em colaboração com escritores e outros ilustradores. Queremos que a nossa marca não se limite apenas a uma linguagem , a uma só forma de fazer, acreditamos na diversidade plástica como identidade da marca. A internacionalização da marca é também um dos desafios a que nos propomos para 2022.

Patrícia Pereira

Licenciada em Artes Plásticas- Pintura pela Faculdade Artes da Universidade do Porto e Mestre em Arte e Design para o Espaço Público, pela mesma Instituição. Em 2011, mudou-se para Moçambique e aqui criou a sua empresa que se desenvolveu em duas frentes: customização de vestuário de alta costura e formação de mulheres desempregadas.

Feminista de convicção, o seu imaginário é fortemente influenciado pela vida natural, pelo gosto pela aventura e histórias. Viajar , comer, conversar e desenhar são as suas paixões.

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