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A Circle For Purpose alimenta-se de uma comunidade para a sua produção, onde se incluem marcas de moda e design sustentáveis. Os conceitos na produção de têxteis para lar e escritório são claros: #ZeroWaste e #Upcyclling.

A ideia começou a ganhar forma quando a Mafalda, uma das fundadoras, trabalhou com a primeira editora de moda sustentável da Vogue Austrália e ficou alerta para o tema da sustentabilidade. O resto da história está na entrevista.

têxteis lar

Como surgiu a ideia da Circle For Purpose e quais os foram os primeiros passos para concretizá-la?

Há cerca de 2 anos comecei a acordar para o tema da moda sustentável e ficou na minha cabeça. Em 2020, num dos meus primeiros contactos nesta área trabalhei com a Clare Press, a primeira editora de moda sustentável da Vogue Austrália, no Sustainable Angle Event, em Londres.

Pouco depois, comecei a trabalhar numa start-up em Londres, plataforma online de detergentes eco friendly e de arranjos de roupa. Aqui tenho continuamente a oportunidade de me rodear de pessoas influentes da área, tal como a Orsola de Castro, a co-fundadora da Fashion Revolution, expandindo diariamente a minha rede de contactos. Estas pessoas inspiram-me a contribuir com soluções sustentáveis e criativas de upcycling para uma indústria tão poluente. Com base nestas conversas, comecei a questionar a minha relação com roupa e a pensar em alternativas para tanto excesso de produção: como posso ajudar a construir um planeta melhor e contribuir para a consciencialização e alteração dos hábitos de consumo.

Juntei-me a uma amiga, definimos a estratégia da marca e de seguida entramos em contacto com marcas de roupa e de design de interiores de forma a confirmar que realmente havia esta falha no mercado. Depois o processo foi fluindo, com muito trabalho e de forma orgânica, e passados uns meses nasceu a Circle For Purpose.

 

Como descrevem a Circle for Purpose, enquanto marca e os seus produtos?

A palavra para descrever a Circle é, sem dúvida, disrupção.

Não só nascemos com o objetivo de consciencializar as pessoas em relação ao impacto da indústria da moda e ao excesso de consumo no planeta, como também tentamos ter uma abordagem divertida, de forma a quebrar o tom mais clássico das lojas de produtos para casa.

Em relação aos nossos produtos, penso que “qualidade surpreendente” é a melhor forma para os descrever. A resposta dos nossos clientes tem sido de grande surpresa quando se apercebem que, apesar de serem peças feitas de tecidos não desejados, não deixam de ter uma qualidade excelente. Fazemos sempre uma seleção cuidadosa de todos os tecidos com os quais trabalhamos, não aceitamos peças em mau estado e trabalhamos com materiais de qualidade tais como: lã, algodão orgânico, linho, algodão, pele, bombazine…

texteis lar - eco friendly

 

Podem explicar-nos um pouco os conceitos de Zero Waste e Upcycling e de que forma estão incorporados na Circle for Purpose?

O termo zero waste aplica-se no sentido que aproveitamos todos os têxteis possíveis, trabalhamos sempre com amostras, fins de rolo ou retalhos. Pela sua natureza, as nossas coleções são muito limitadas, com poucos exemplares de cada peça.

No que diz respeito ao upcycling, todos os tecidos que nós trabalhamos nasceram com a intenção de serem casacos, t-shirts, vestidos, amostras para capas de almofada ou até mesmo coberturas para transportadora de bebés (coques).

A nossa função é pegar nestas amostras e dar-lhes um novo propósito, como tal, o nosso processo de desenvolvimento de produto é contínuo. Uma das partes mais desafiantes do trabalho é perceber como transformar retalhos tão pequenos, como as amostras da Barreiros & Barreiros ou os pequenos cortes de tecido da Cocoon, e dar-lhes uma nova vida. Olhar para estes pequenos excedentes e conseguir criar uma peça bonita, com qualidade e prática para o nosso dia-a-dia, é realmente o mais gratificante.

têxteis

Nunca como este ano as pessoas passaram tanto tempo em casa. Isso teve impacto na procura pelos vossos produtos? Há algum que se destaque?

O website só ficou disponível há menos dum mês, como tal, ainda não deu para medir esse impacto. No entanto, vimos certamente uma grande procura dos tapetes de rato em pele – que levou à rutura de stock de algumas cores no próprio dia do lançamento.

Entendemos que esta procura se deve ao facto de que hoje em dia os dois espaços (casa e trabalho) se sobrepõem. Como tal, temos em pipeline mais novidades para facilitar o teletrabalho.

 

Têm parcerias com outras marcas sustentáveis. No que consistem estas parcerias?

Para já temos parcerias com a One of Us Kids, IMAGO, Naz (já entrevistada no Green Purpose), Cocoon, Barreiros & Barreiros e Vidi Studio – os nossos parceiros entregam-nos tecidos que não irão utilizar mais ou que tenham defeitos.

Contudo, as nossas parcerias não se limitam a tecidos – com o apoio da Struts Lisbon conseguimos, também, que as caixas onde enviamos algumas das nossas encomendas fossem produto de reutilização de caixas de sapatos que, noutra situação seriam deitadas fora.

 

O que sentem que os vossos clientes mais valorizam? Exclusividade? Sustentabilidade? Preço?

A componente sustentável tem um impacto muito forte. A Circle nasceu com o propósito de mostrar que o futuro é circular e passa por um processo educacional de conseguirmos mudar mindsets. A exclusividade é uma das nossas maiores características. Havendo poucos exemplares de cada peça faz com que tudo o que produzimos seja extremamente exclusivo e único, o que motiva os nossos clientes.

têxteis eco friendly

 

Qual o perfil do vosso cliente habitual?

Ainda é muito cedo para conseguir delinear um perfil completo, no entanto com base nestas primeiras semanas conseguimos pelo menos apontar para uma média de idades entre os 30 e os 45 anos.

 

Que ambições têm para o futuro da Circle for Purpose e onde podemos encontrar os seus produtos?

De momento estamos em contacto com marcas no Reino Unido e, aos poucos, o plano é conseguir chegar às grandes marcas que são maioritariamente responsáveis pela poluição na indústria da moda. Consideramos isso naturalmente um pipe-dream.

Apesar de sermos uma marca focada na criação de têxteis para casa e escritório, já tivemos alguns contactos para criar peças exclusivas em parceria com a Circle. De momento podem encontrar todos os nossos produtos no website e, por agora, o plano é manter a venda online exclusivamente. No futuro, se estrategicamente fizer sentido, não excluímos a possibilidade de estar presente num espaço físico.

Mafalda

Co-founder Circle For Purpose

Nascida no Porto, trabalho há 5 anos como brand manager, tendo passado por varias industrias. Comecei numa empresa global no sector da hotelaria e eventualmente mudei-me para o mundo das start ups, pelo desafio. O meu foco sempre foi fazer as marcas crescer, principalmente através da comunicação e visibilidade que as mesmas podem alcançar. Atualmente, sou a responsável do departamento de marketing de uma start up em Londres, na área da moda sustentável – a principal fonte de inspiração para a criação da Circle For Purpose.

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Duas amigas, com largos anos de experiência no mundo da moda, decidem começar a sua marca em plena pandemia.

O que as diferencia? Usam restos de fios das grandes marcas, para criar camisolas feitas por tricoteiras em Portugal. Lê tudo na entrevista.

 

Quem é e como surgiu a Thinking G? 

Thinking G foi criado por duas amigas, daí a confiança e suporte ser o núcleo da companhia.

Muitos de nós, durante a pandemia, tivemos mais tempo para refletir sobre as metas da nossa vida e repensar os nossos valores. Nós tivemos uma ideia de criar uma marca comercial de moda, contudo sabíamos desde o princípio que não será só mais uma peça de roupa no mercado da moda.

Nós acreditamos que tudo que criamos deve ter um significado. A principal e primeira ideia estava relacionada à produção sustentável. Ambas trabalhávamos na indústria da moda, por isso sabíamos que usualmente as marcas não utilizam os seus tecidos ou os seus fios de lã até ao fim, existem sempre sobras. Depois de encontrarmos os parceiros, a ideia foi completada e a Thinking G nasceu na forma com agora a vemos.

 

moda com restos de fios

 

Alguém que veja pela primeira vez a Thinking G, que percepção ambicionam que tenha imediatamente? 

Para aqueles que vêm a peça de Thinking G pela primeira vez, nós gostaríamos que olhassem além.

Queremos que as pessoas vejam o produto de alta qualidade e todo o trabalho para de trás dele. Nós gostaríamos que esta peça faça as pessoas perceberem que uma camisola de fio de lã natural pode substituir 4 camisolas de poliéster de produção de massa, e que uma peça manualmente feita não quer obrigatoriamente dizer que está fora de moda.

Claro que queremos que as pessoas compreendam que uma certa atitude consumista não prejudica, mas ao contrário, pode ajudar a planeta. Todavia Thinking G é acima de tudo um lindo produto de moda, por isso que tal o simples “wow” com primeira impressão?

 

A Thinking G assume uma missão de desperdício zero na produção de roupa. Podem explicar-nos como o fazem?

THINKING G – a marca que dá às sobras a atenção que elas merecem. Acreditamos que o nosso conceito principal merece atenção e deveria tornar-se numa prática amplamente usada a nível mundial.

Nós usamos as sobras dos fios quais compramos das marcas de luxo ou de fábricas que fabricam para tais. Infelizmente, 1-2 kg das sobras do fio podem ficar armazenadas para sempre, mas nós ficamos felizes de lhes poder dar uma segunda vida.

Após ter comprado os fios, os mesmos têm de ser limpos e dobrados para ficarem prontos para as nossas artesãos.

Desperdício zero na produção mundial pode parecer uma utopia por agora, a qual não nos impede de dar os primeiros passos para o realizar. 

Tanto as marcas como as fábricas seguem a ideia de redução de desperdício ou simplesmente querem livrar-se das suas sobras, geralmente ficam felizes em colaborar.

 

moda feita por tricoteiras com restos - thinking g

 

Em relação à produção, que acreditamos possa ter especificidades, como a asseguram?  

Nós desenhamos os modelos em Paris, mas não os fazemos. Trabalhamos com senhoras tricoteiras, que fazem as malhas para nós cá em Portugal. 

Trabalhamos exclusivamente com o fio natural: alpaca, caxemira, merino, lã.

O fio comprado é indicado para trabalhar em máquinas e daí ser demasiado fino. Então tem de ser dobrado para tricotar à mão (pode se fazer manualmente ou com a máquina especial).

Depois passamos o fio dobrado à artesã, que normalmente demora de 20 a 30 horas para fazer uma peça.

 

Que impacto tem para a cliente a utilização de sobras de fio na produção das peças de roupa, no conforto e durabilidade?

Os materiais que usamos para fabricar as nossas roupas são fundamentais para honrar o valor da nossa marca. Nós colaboramos com marcas de luxo e fabricantes de roupa ao comprar os restantes fios de lã, os quais eles não planeiam usar para as próximas coleções.

O montante que compramos varia de 800g até 5 quilos por fio, que pode ser considerado uma sobra à escala de uma grande produção, mas é um puro tesouro para nós e para o cliente. Por vezes é suficiente para criar só um modelo que significa que podes ser a proprietária de uma peça que é única. 

 

thinking g - moda com restos

Como caracterizam as vossas peças, para que tipo de mulher são?  

A mulher Thinking G é uma mulher atenciosa! A mulher que aprecia qualidade sem sacrificar o estilo.

Ao mesmo tempo ela não corre atrás das tendências da moda, mas prefere ser a possuidora da uma roupa que vai durar através do tempo. Ela valoriza a exclusividade, pois cada peça Thinking G manufaturada não pode ser copiada.

 

De que forma a parte social está incorporada na Thinking G? 

Nós tentamos não só ser ambientalistas, mas também socialmente responsáveis ao apoiar a comunidade das mulheres de várias maneiras.

Em conjunto com a nossa equipa de tricoteiras, nós produzimos roupas em Portugal. Leva horas de trabalho de precisão e dedicação para criar uma peça manualmente tricotada. Pode ser o trabalho a tempo inteiro para algumas tricoteiras ou o tempo parcial para outras, nós ficamos felizes por encorajar o seu trabalho ao pagar-lhes um valor justo.  

Também cooperamos com a “Woman Foundation”, que apoia mulheres que sofrem de violência doméstica, ao providenciar com suporte jurídico e financeiro. Nós por vezes queremos ajudar, mas não sabemos como fazê-lo. As nossas clientes podem encontrar informação mais detalhada e contatos no nosso website

 

São uma marca que nasceu em plena pandemia, que todos os estudos indicam esteja a marcar mudanças no tipo de consumo das pessoas. Como imaginam o futuro da moda e quais as expectativas da Thinking G? 

O mundo da moda está a mudar drasticamente neste momento. Apesar de cada marca estar a proclamar a sustentabilidade, por vezes essas declarações são falsas, mas também existem muitas marcas que realmente mudam a atitude delas e lançam iniciativas ambientalmente e socialmente responsáveis.

Há cada vez mais plataformas para marcas sustentáveis, mais bloggers a apoiar a comunidade, e por último, mas não menos importante – nós começamos a ter clientes que se preocupam com estes ideais. Estes clientes estão dispostos a comprar roupa feita eticamente, concluindo que não é uma questão de grande mudança na sua atitude, mas somente uma simples escolha de roupa que ao mesmo tempo se torna numa entrada para algo maior. Como uma passagem de “Thinking Good” para “Thinking Global”.

Thinking G nunca será enorme e não é esse o nosso objetivo. Nós sonhamos com uma produção com o mínimo de desperdício e sobre uma comunidade das mulheres que partilham os nossos valores.

Nós usamos o hashtag que nos ajuda a identifica-las #spottinggthinkers e estamos felizes ao ver esta comunidade a crescer. 

Viktoria and Liliia

Fundadoras da Thinking G

Duas personalidades diferentes com caminhos muito parecidos. Ambas tiraram o Master degree em tradução em Kyiv, Ucrânia, onde aprenderam varias línguas estrangeiras e ambas continuaram os estudos e tiraram o outro degree em Marketing das Industrias de Luxo em Paris, França. As graduadas continuaram os seus estudos ao trabalharem em retalho e venda por grosso para grandes marcas de moda e também para independentes desenhadores de moda contemporâneas.

Em março 2020 estava mais do que na altura de dar o passo seguinte na carreira para ambas, para ver o que pode nascer de uma longa e duradora amizade – e já em Novembro 2020 a marca Thinking G foi lançada.

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Não ficamos indiferente ao artesanato português, mas quanto estamos dispostos a pagar por ele?

Esta é uma luta da Esperança Vitória, Artesã & CEO da Victoria Handmade, que, crescida numa família de artesãos de junco, desistiu da profissão antes de a começar, ao ver as dificuldades da família num produto que sempre foi vendido abaixo do preço de produção. Mas o falecimento da mãe mudou a sua história e até já venceu o Prémio Nacional de Artesannato e emprega a irmã. Lê tudo na entrevista abaixo.

Como surgiu a ideia de criar a Victoria Handmade? 

Enquanto história e tradição, esta Arte de tecer o Junco faz parte da nossa família desde 1952, quando a minha Querida Avó Vitória colocou o meu pai na escola para aprender esta Arte Ancestral – ele ainda com 9 anos de idade – nunca tendo parado desde então – e já na altura conhecido por ter as melhores cestas de junco da aldeia – ensinando posteriormente à minha mãe e a cada uma de nós desde tenra idade, suas filhas.  

Com 38 anos de idade, com o falecimento da minha mãe a juntar à falta de realização profissional que passava no momento, decidi despedir-me do emprego onde estava há 14 anos para trabalhar naquele que aprendi desde os 5 de idade. Para trabalhar naquilo que todos diziam ser impossível de sobreviver e do qual me afastei à primeira oportunidade com ainda nem 18 anos devido à sua insustentabilidade: na cestaria de junco.

Sabendo que a minha maior luta seria a desvalorização do artesanato, mas não perdendo o desejo de valorizar a arte de tecer o junco com a ousadia de lhe acrescentar modernidade, para que pudéssemos continuar a tecer estórias.

E foi assim que o projeto Victoria Handmade nasceu, em memória da minha Querida Mãe que partiu deste universo no mesmo ano, e do meu Pai que via esta arte extinguir-se entre as suas mãos, dia após dia, sem antes alcançar as suas: Uma força que nos fez renascer.

 

estória do artesanato de junco

 

Transformar cestas de junco num produto premium. Conte-nos como tem sido esta jornada?  

A jornada tem sido revolucionária, revoltante e agridoce, mas ao mesmo tempo a nossa maior vitória e sentimento de realização.

Infelizmente existe a ideia pré-feita de que o artesanato tem de ser barato, e isso tem sido o nosso maior obstáculo. Tornar este produto premium foi essencial para preservar e dignificar esta arte, cada vez mais à beira da extinção.  

O facto de toda a vida estas cestas terem sido conhecidas tradicionalmente nas feiras a preços ridiculamente baixos foi, e ainda hoje o serem, é a nossa maior batalha e revolta. Porque se por acaso tiverem a sorte de falar com o próprio artesão e questionar se a arte dele permite sobreviver dela, nós temos a certeza da resposta. Nós vivemos essa resposta na pele toda a vida dos 5 aos 17 anos ao ponto de desistir dela e estar mais de 20 anos afastadas. E chegarmos ao ponto de o público achar que os estamos a roubar, de literalmente nos chamarem de tal e até pior depois de criar a Victoria Handmade, é o nosso maior lamento.

Mas o que as pessoas não têm noção, é que já na altura em que o meu pai vendia as cestas a um comerciante para que, esse sim, as vende-se nas feiras a um preço ”justo” onde ganhava margens de 100 e 200% de lucros, o meu pai teve de as vender a um preço que claramente não pagava as horas de trabalhos que ele, as suas 3 filhas e esposa investiram. Quando as pessoas nos dizem ”encontramos cestas de junco na feira por 20€” não têm a real noção que, nesses 20€ que pagaram, o comerciante tem uma margem de 100%, e uma Esperança Vitória de 5 anos, fez essa mesma cesta a preço 0 para os pais as poderem vender a alguém que a comprasse.

Então se dissessem a essa Esperança, que aos 38 se despediria de um emprego estável, para retornar a um trabalho que fugiu a 7 pés, essa Esperança de 5 anos iria rir-se na cara da de 38 e provavelmente chamá-la de louca. Mas quando me dei conta que na minha aldeia natal – Castanheira, Cós – Alcobaça – esta arte se perdia nas mãos dos mais velhos enquanto complemento à reforma, e que a minha mãe faleceu com o desejo de poder voltar a ver cestas a saírem da nossa casa como antigamente e o meu pai cada vez mais incapacitado de continuar nesta arte, ganhei a coragem que precisava para começar esta jornada: de ser das artesãs mais novas deste mercado, e a primeira – e atualmente das muitas poucas – a ter todos os seus direitos de trabalhador assegurados – segurança social, um ordenado, portas abertas de um atelier, tudo o que uma empresa artesanal tem de encargos – e 2 anos depois, ainda conseguir empregar a minha própria irmã mais velha, Carla, desempregada na altura, foi um sonho, que não sabia ter, realizado.  

Concluindo, tornar as cestas de junco em algo premium foi a única forma de não permitir que esta arte morresse nas minhas mãos sem antes chegar às do público. Entregar a mais alta qualidade artesanal. Uma cesta Victoria Handmade tem entre 8 a 16 horas de trabalho das minhas mãos e da minha irmã. E apesar de haver um maior investimento nosso e da parte de quem compra, que opta por qualidade em vez de quantidade, o que nos consola é saber que também haverá menos desperdício, mais intenção e amor por detrás de tudo o que fazemos, temos e somos. 

 

Como se conta a história por detrás de um produto que tem uma arte ancestral incorporada?  

Conta-se muita estória, nostalgia, memórias, e paixões, numa única peça. Sentimentos esses por parte de quem faz, e por parte de quem a compra. 

Acreditamos que a única forma de preservar as artes e ofícios é ao manter os métodos de produção inalterados, mas entregar um resultado contemporâneo diretamente das mãos do artesão até à pessoa para quem aquela peça foi feita. Há um sentimento de ”orgulho” que sai das nossas mãos, ao fazermos cada peça. E quando é entregue à pessoa para quem foi feita, sabemos que ambas as mãos, as nossas e as dessa pessoa, se fundem numa só estória: o nosso legado.

 

 

O que é que existe de local e típico na Victoria Handmade?  

Todas as nossas peças são 100% feitas-à-mão – típico da arte em questão, pois não existe outra forma de o fazer senão manualmente – com materiais naturais e 100% nacionais.

O nosso junco, uma planta que nasce selvagem em terrenos alagadiços, é apanhado por nós mesmas no centro de Portugal. Todo o nosso couro, sempre de curtimento vegetal que reduz a nossa pegada verde e permite tornar o nosso produto da mais alta-qualidade eco-friendly, advém de Alcanena classificada como a melhor zona de curtumes de Portugal.  

Portanto, de típico existe pouco enquanto resultado final de design, mas a essência de um produto 100% português mantém-se fiel.

 

Victoria Handmade - peças de junco

 

Fale-nos um pouco sobre o processo de criação destes produtos que começam com a apanha do junco.   

Existem 5 grandes fases antes de um produto victoria handmade chegar às suas mãos.

1 – Apanha do Junco

Tudo começa na apanha e secagem do junco, onde somos gratas pelo que a natureza nos traz de melhor. Esta é a fase mais difícil de todos os processos, e aquela em que a natureza tem de trabalhar a nosso favor e que torna as restantes fases possíveis.

O junco cresce selvagem em terrenos com grande abundância de água – sem água não haverá junco, então é essencial que tenhamos um inverno chuvoso, para que a semente do junco possa crescer nas terras alagadiças. Chegando a primavera, é essencial o sol para fazer brotar a espiga do junco e terminar assim a fase do seu crescimento. A partir de Maio até Agosto – dependendo do estado de espírito do tempo durante todo o ano anterior – podemos apanhar o junco, ir directamente às terras, cortar rente ao chão e dividir em fechos da braçada de um homem comum.

No fim da apanha, passamos pelo processo de secagem. Esta também é feita naturalmente. O junco é estendido em terrenos sobre o forte sol de verão para que a sua cor original verde escura, possa secar sobre o sol até ao tom ”natural” creme pérola. – Aqui é essencial que não chova pois se chove no momento em que o junco está estendido sobre os terrenos a secar, este acaba por ficar manchado e não chega a secar totalmente, ficando com junco ”imperfeito” para todo o resto do ano.

Pelo que esta fase apenas acontece uma vez por ano, tendo que apanhar junco suficiente para o ano inteiro até à próxima campanha, pois só no verão é que o junco está pronto a apanhar, e só o sol o pode secar. Se esta fase não acontecer, o junco acaba por apodrecer nos terrenos, até renovar num próximo ano. 

2 – Preparação do Junco

 Fase 2 é a preparação da matéria prima: o junco no fim de seco pelo sol, tem de ser escolhido, manualmente pauzinho a pauzinho, os juncos bons a trabalhar (que não estão muitos escuros, podres, juncos que são demasiado duros para trabalhar, ou demasiados moles, ou ervas misturadas nos molhos que foram apanhados). Além desta escolha, existe o processo de retirar a espiga/semente do próprio junco, uma vez que não podemos tecer cestas com a semente misturada! No fim da escolha feita, o junco é limpo e enxofrado para clarear – este processo é um método ancestral que faz toda a diferença para permitir que o junco seja bom a trabalhar. 

3 – Tingimento do Junco

Fase 3 é o tingimento em diferentes cores, das mais neutras às coloridas, onde o junco, a água quente e pigmentos naturais de cor são colocadas ao lume para que o junco agora de tom creme, possa ser tingido de vermelho, ou verde, amarelo, etc. No fim de tingido, o junco é novamente colocado a secar ao ar para concluir a aderência da cor. 

4 – Tecer as peças com o fio de juta (um fio natural)

Fase 4 é finalmente o tear: tecer as peças com fio de juta (um fio natural). O junco é entremeado com a juta pauzinho a pauzinho, batido com um pente de madeira, até criarmos uma esteira completa do tamanho correto. Um tear completo, pode levar entre 6 a 7 esteiras. No fim de encher o tear, cortamos, atamos as pontas e voltamos ao tear para fazer um 2º tear, este para as laterais das esteiras que fizemos primeiramente. Conclusão, para fazer uma cesta, serão sempre precisos dois teares: um para fazer o corpo principal, e um segundo para fazer os 2 cantos para esteira que irá dar forma à cesta.

5 – Acabamentos

Fase 5 são os acabamentos. Onde por fim podemos coser a peça para dar forma à cesta, ornamentamos com ferragens, colocamos asas de verga, protegemos com um acabamento à base de água para que as peças se tornem impermeáveis, assim como o couro eco-friendly desde alças, assas, cantos, etc é todo cortado manualmente por nós (compramos ao fornecedor o couro completo do animal, para ser aproveitado da melhor maneira de modo a evitar qualquer tipo de desperdício.)

Podemos ainda mencionar uma fase 6 em que a peça está por fim concluída, e toda a promoção online, fotografias, webdesign, gestão de redes sociais, atendimento ao cliente, gestão de encomendas, é ainda assegurada pela nossa equipa atual onde eu, a minha irmã e a minha filha entregamos o nosso melhor até si.´

Conclusão

Para que entendam melhor, tradicionalmente não é comum uma única família fazer todos os processos por detrás de uma cesta. Na minha aldeia, o comum é:

  1. Uma família que apanha e vende o junco;
  2. Uma segunda família que faz os tingimentos e tece no tear;
  3. Outra família que cose e dá forma à cesta,;
  4. Outro alguém que coloca as asas de vime/verga;
  5. Por fim, alguém que a vende – seja o próprio artesão (pouco comum) ou um comerciante.

Nós, na Victoria Handmade, sentimentos a necessidade, de modo a ser sustentáveis e ter total confiança que entregamos a melhor qualidade artesanal, de fazer tudo. Só deste modo poderíamos fazer a diferença. 

 

Há uma forte componente manual em toda a criação. Quantas horas demora até termos uma cesta Victoria Handmade nas mãos?  

O facto de todos os processos que referimos acima não serem feitos uns atrás dos outros, permite que todo o tempo seja diluído em mais do que uma peça. No entanto, todos estes processos consomem bastante tempo, e podemos assegurar que contabilizando todos os processos, apenas uma peça tem no mínimo entre 8 a 16 horas de trabalho artesanal: todo esse trabalho nosso do início ao fim. 

Victoria Handmade - peças premium em junco

Qual é o vosso produto estrela? Aquele que melhor simboliza a vossa proposta de valor e que mais vende.  

Sendo a nostalgia que cada peça Victoria Handmade acarreta pelos tempos e memórias felizes que vivemos no passado ao lado destas cestas, sem dúvida que há uma peça que ganha vitoriosamente o título ”Best Seller”. O nosso modelo Cesta Shoulder, Strong Escuro  é a peça favorita da grande maioria, retrata na perfeição a aliança entre a tradição e a contemporaneidade. 

 

Quem é o vosso cliente? Como o caracteriza?  

Atualmente temos dois grandes tipos de cliente:

  1. os consumidores de slow-fashion
  2. os consumidores nostálgicos.

O nosso produto retrata muita nostalgia e memórias ao público português, e a nossa alta qualidade artesanal faz com que seja cobiçado pelo público em geral, sendo o foco em mulheres modernas entre os 30-45 anos de idade de uma classe média / alta.

O facto de sermos um produto derivado de fibras naturais, e devido à nossa história, tradição e a nossa missão, encaixamos na perfeição no conceito de slow-fashion, que acreditamos ser cada vez mais o futuro para melhor. O público internacional é o que de momento mais se concentra neste conceito e estilo de vida. No entanto, apesar de partirem do princípio do contrário, especialmente nesta fase difícil que todos nós atravessamos, o público português tem uma grande parte da fatia do bolo da nossa faturação, sendo este consumidor nostálgico que atualmente se sobrepõe ao da slow-fashion, mostrando a união que é o Português comprar o que é Português. 

 

As cestas tradicionais Victoria Handmade foram distinguidas com o Prémio Nacional do Artesanato. Em que consistiu esta distinção e o que simboliza para si? 

Mais do que alguma vez poderei explicar. 

Existe um sentimento de missão cumprida, apesar de ainda haver tanto a fazer. Sinto, e tenho a certeza, que a minha mãe, onde quer que esteja, está orgulhosa do mesmo modo que os olhos do meu pai brilharam quando lhe dei a notícia. Este prémio retrata toda a minha família, e saber que tudo o que a victoria handmade é foi conquistado sempre em família e união, é surreal e impossível de transpor em palavras.

Os anos de dedicação que demos a esta arte, representados num único prémio. Pensar que tudo isto começou graças à minha avó Vitória que, apesar de não saber fazer, foi quem incentivou que esta arte fizesse parte de quem somos; que me permitiu ganhar este prémio. 

E por fim, mas não menos importante, este prémio simboliza que o artesanato tem valor, que o artesão não é um pobre coitado e sim um Artista. Que o Artesanato está cá, e merece ficar. E que não podemos lamentar as coisas, depois de as perdermos. Esta é a hora de valorizar o artesanato. Artesanato é Cultura Portuguesa, e está nas nossas mãos preservar essa cultura.  

Victoria Handmade - mala em junco

 

Quais os próximos passos para a marca? 

Continuar a investir em nós mesmas, independentes de qualquer tipo de marcas ”gigantes” para nos fazermos notar.

Continuar a deixar a nossa Arte falar por si e chegar mais longe.

Continuar a inovar em cada coleção, continuar sustentáveis e fiéis à nossa ética de trabalho e ambiental.

Continuar a tecer estórias e momentos felizes ao lado de quem nos aprecia, e por fim ser quem somos: artesãs, de corpo e alma.

Esperança Vitória - Artesã e CEO Victoria Handmade

Esperança Vitória 

Artesã & CEO – Victoria Handmade

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Quanto melhor a nossa auto-estima, melhor a nossa relação com o mundo. Mas ter muita roupa será suficiente para isso?

É a isso que a Alexandra Ferreira, fundadora da MÏA-MÔ e In’vestir, nos responde.

A MÏA-MÔ não vende roupa, In’vestir (informa + veste) nas mulheres. De onde veio esta inspiração? O que te move?

Sou apaixonada por pessoas e adoro que cada uma delas sinta que é única e mesmo muito especial. Por isso, comecei por partilhar algumas dicas de motivação e autoestima com as minhas amigas, para que confiassem mais nelas e em todo o #power que têm. Pequenas alterações na forma com pensamos e percecionamos a nossa imagem, têm um grande impacto da nossa autoestima e em tudo o que fazemos na nossa vida. Por isso, quando pensei lançar a MÏA-MÔ, sabia que mais que vender roupa, queria investir nas mulheres, aumentar-lhes a confiança!

Acredito que “existem mulheres fortes e mulheres que ainda não descobriram a força que têm”, por isso, quero muito contribuir para que as mulheres do #mundomïamô sintam que são as diferenças de cada uma que as tornam tão especiais e que cada uma é forte à sua maneira.

Quanto à marca de roupa e a sua versatilidade, a inspiração veio das viagens de trabalho. Sempre que viajava em trabalho, tinha que levar imensa roupa, para os diferentes eventos diários. Queria começar a viajar com menos roupa, mas não com menos possibilidades de combinação. Por isso, idealizei a peça Self-Confidence, que, juntamente com uma camisa branca, me possibilita mais de 15 combinações diferentes.

Sinto que o futuro da moda é por aí, comprar menos e usar mais – é também o nosso slogan – então o design de todas as peças é pensado para ser intemporal e as peças usadas de várias formas.

A mensagem que passamos às nossas clientes, é que as nossas peças são para combinar com o que já têm em casa, não para comprar tudo!

Desta forma, os nossos conteúdos passam por dicas de como conjugar a peça X ou Y da MÏA-MÔ com a peça X ou Y que a maioria das mulheres tem em casa, como por exemplo, uma camisa branca.

 

 Mia-Mo - Empoderamento da Mulher

 

Em que medida a roupa pode contribuir para o empoderamento da mulher?

A nossa imagem deve trabalhar sempre a nosso favor. Não só pelo que transmite aos outros, mas principalmente pela nossa autoestima.

Uma mulher confiante é uma mulher mais empoderada.

Quando falamos em imagem, não falamos apenas na roupa, mas sim em todo o conjunto, que vai desde o que veste, à forma como comunica e se apresenta. Por isso é que criámos o curso imagem pessoal e comunicação, onde todas as mulheres podem trabalhar a sua imagem de forma única, elevando as melhores características de cada uma, para que cheguem onde sempre desejaram.

 

A que tipo de mulheres se destinam as tuas coleções?

Às mulheres que querem investir nelas, da mesma forma que investem na vida profissional e se dedicam à pessoal. Ou seja, a todas as mulheres que acreditam que podem construir uma imagem de sucesso, assente em pilares sólidos de confiança e motivação, que perdura e facilita a tarefa de se vestirem todos os dias. Porque, “tudo é possível com uma mente positiva e uma roupa gira”.

 

Mia-Mo - Empoderamento Sustentável

 

Há elementos da natureza, como as ondas do mar, bem presentes nas peças. A natureza é uma fonte de inspiração?

Sim, muito mesmo!

Moro no campo desde que nasci, acordo todos os dias rodeada pela natureza e continuo a ficar fascinada com o chilrear dos pássaros e o som da água do riacho, como se fosse a primeira vez.

Acredito que foi esta conexão, com o que há de mais puro, que me fez despertar para a sustentabilidade. Por isso é que nas duas primeiras coleções não produzi tecidos para as peças e nesta 3ª apenas produzi um, que é um tecido reciclado. 

Com as ondas do mar, queremos passar força às nossas clientes, para enfrentarem as “tempestades” do dia a dia.

Todas as peças têm um propósito, uma mensagem, um pormenor de empoderamento… tudo é pensado ao mais pequeno detalhe.

 

Tens peças muito versáteis. Dá-nos alguns exemplos das peças mais icónicas.

Até ao momento e já com 3 coleções, lançamos apenas 15 peças. Porque apostamos muito em conjuntos que se “desmontam” e possibilitam vários looks diferentes.

As peças que se destacam são:

Self-Love: O casaco mágico! Quando chove aparecem andorinhas, quando seca volta à cor original. Pode ser usado curto ou comprido, é impermeável, corta-vento e polar.

Self-Confidence:  2 peças, 15 formas de usar! É a peça mais versátil da MÏA-MÔ e a que mais mulheres apaixona.

Amazing: O vestido preto, que se desmonta… para que use só a saia ou a blusa. É a peça mais vendida da marca e foi feita a pedido de uma cliente, pois não tencionava ter a cor preta nas coleções.

 

Mia-Mo - Empoderamento da Mulher

 

 

O “made in Portugal” também está presente. Em que se traduz?

Todas as nossas peças são feitas manualmente, em Portugal, por modelistas com + de 20 anos de experiência.

Os nossos fornecedores são todos Portugueses – da zona norte do país, assumimos o compromisso da sustentabilidade, do pagamento justo e do contributo social.

 

Que principais momentos desde a criação da marca até agora destaca?

Confesso que lançar a marca no Portugal Fashion, foi a realização de um sonho pessoal, mas que deu grande visibilidade e credibilidade à MÏA-MÔ.

Lembro-me como se fosse hoje, da primeira venda online. É uma história parva, mas vou partilhar  Estava a lavar os dentes e recebi um e-mail de confirmação de encomenda… saí da casa de banho aos saltos – com a escova na boca – e fui contar aos meus pais. Eles fizeram a mesma “festa” que eu. Nos dias seguintes, só diziam… já foste lavar os dentes?

Depois disso, posso destacar a ida ao programa da Cristina na Sic, entre outros programas de televisão, que reforça sempre a comunicação e credibilidade da marca. Como somos uma marca 100% digital, as pessoas confiam rapidamente em nós por esta presença assídua nos meios de comunicação, pelos rasgados elogios que dão à qualidade e inovação das peças e também porque o feedback que as nossas clientes deixam no site, espelham claramente o serviço que prestámos.

 

Onde podemos encontrar a Mia-MO à venda?

www.mia-mo.com – o nosso site

www.pipsbazaar.pt – site da Pipoca Mais Doce

www.cirelle.pt – site da Mafalda Carvalho

 

Alexandra Ferreira

Dreamer & Founder

Licenciada em Turismo – Universidade do Algarve. Mestre em Gestão de Eventos – Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

Apaixonada por moda, pela segunda-feira e por gomas. Fundadora e CEO da empresa Women’s Empowerment & Fashion Solutions, que detém as marcas MÏA-MÔ – de vestuário com produção e design próprio – e a In’Vestir – de formação e Styling. Especializou-se em styling e produção de moda pela Fashion School. Na área de marketing, vendas e eventos, tem mais de 10 anos de experiência, tendo trabalhado em empresas como a Vodafone, Imaginarium, Fundação Inatel e BTRUST.

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A Näz é uma marca de moda sustentável 100% portuguesa, que nos despertou de imediato o interesse, até pela sua forte presença em mercados internacionais . Contactámos a Marta Ferreira, marketing specialist da marca, para nos responder a algumas questões, relacionadas com a recetividade do consumidor português à moda sustentável, os pilares sustentáveis da Näz, o impacto da moda no futuro do planeta e da pandemia no consumo atual. Não percam, está tudo abaixo. 

 

A Näz nasceu da ambição de criar uma marca na área da moda, ou da vontade de criar um projeto sustentável? 

A Näz surgiu da ambição de criar uma marca de moda sustentável 100% portuguesa

Apresentam 3 grandes “forças” na área da Sustentabilidade:

  1. Social Integration,

  2. Democratic Design 

  3. Share Information.

Podem explicar melhor o que é cada uma delas e de que forma se incorporam no negócio? 

No que toca a social integration, a Näz tem grande parte da sua produção localizada na região da Beira Interior, que, apesar de ser um ponto de referência na industria têxtil, é, ao nível nacional, uma das áreas mais afetadas por desigualdades sociais, quer ao nível de acesso a serviços, quer ao poder de compra dos habitantes da região. Os nossos produtos são produzidos e criados em cooperação com os nossos parceiros, num processo de aprendizagem conjunto e contínuo, onde se pretende aliar técnicas e conhecimentos da industria, com metodologias alinhadas com a sustentabilidade.

Em relação a Democratic Design, todas as nossas peças são pensadas de forma a que tenhamos um menor range de tamanhos, mas que consigamos incluir um maior número de corpos diferentes nas nossas peças. Linhas minimalistas, e oversized, são as principais características das nossas peças. Ainda nesta linha de pensamento, uma parte da nossa coleção é feita em fibras prontas a tingir, permitindo que um certo tipo de material, como o linho em natural pronto a tingir, seja moldado a diferentes designs. 

Por fim, em Share Information, a Näz pretende tornar-se 100% no que toca à sua produção. No nosso website, temos uma área dedicada aos nossos parceiros, materiais, e transparência, onde exemplificamos o cost brakdown de uma peça. As redes sociais são um veículo de informação muito importante para nós, e aqui também concentramos a nossa comunicação na partilha de informação em torno dos nossos produtos e métodos de produção.

Estamos a trabalhar de forma a trazer aos nossos clientes e seguidores ainda mais transparência neste sentido e estamos a trabalhar para que, já no próximo ano, consigamos partilhar o impacto ambiental e social das nossas peças, bem como o life-cycle acessment dos nossos produtos. 

 

Uma marca que se pauta pela sustentabilidade analisa todo o ciclo de vida dos seus produtos, desde a busca de matérias, ao fabrico, transporte, experiência e descarte.

De que forma a Näz contempla este desígnio na sua proposta de valor?

No nosso website, é possível encontrar informações sobre o ciclo de produção das nossas peças, desde a escolha de materiais, até às fábricas envolvidas no processo. 

Estamos a trabalhar de forma a trazer aos nossos clientes e seguidores ainda mais transparência neste sentido e estamos a trabalhar para que, já no próximo ano, consigamos partilhar o impacto ambiental e social das nossas peças, bem como o life-cycle acessment dos nossos produtos. 

 

 

Qual tem sido a receptividade do consumidor? O que valorizam mais na vossa marca?

Desde que a marca surgiu, em 2017, sentimos uma maior adesão dos nossos consumidores, principalmente devido ao facto de as questões relacionadas com as alterações climáticas e o impacto da moda no ambiente começaram a ser mais discutidas. 

Os consumidores valorizam a qualidade das nossas peças, quer ao nível do design como materiais, o facto de ser um produto produzido na Europa, com uma produção transparente, e a nossa comunicação, que é voltada para um público jovem.

 

De que forma envolvem a comunidade na vossa marca? 

A nossa comunicação é muito orientada para o brand love, pelo que o nosso objetivo é criar uma experiência de 360º em torno da nossa marca. 

Trabalhamos sempre com pessoas que nos seguem nas nossas plataformas para as nossas sessões fotográficas, quer de estúdio, quer lifestyle. Isto permite não só trazer pessoas que à partida se identificam com a nossa marca, mas mostrar que trabalhamos com pessoas “reais”, no sentido em que não são modelos. O resultado é um conteúdo muito mais orgânico, e alinhado com o estilo e personalidade dos nossos clientes e seguidores.  

A nossa comunicação é muito pessoal, e próxima do consumidor. Tratamos o consumidor diretamente por Tu, e expomos nas nossas plataformas questões relacionadas com a sustentabilidade dos produtos, feedback dado por clientes. Temos uma secção no Instagram dedicada aos looks dos nossos clientes, e damos rewards aos nossos melhores compradores em cada coleção. Fazemos também giveaways dos nossos produtos nas redes sociais. 

Criamos parcerias com outros negócios e marcas alinhados com os nossos valores, quer para as nossas sessões, quer para integrarem as nossas encomendas online (com ofertas de produtos por exemplo), de forma a dar a conhecer à comunidade outras iniciativas.

 

Consideramos que os Portugueses colocam em primeiro lugar o facto de ser um produto feito em Portugal, com uma excelente qualidade. Ser sustentável é um plus.

 

 

A Näz está presente, além de Portugal, em vários países como a Bélgica, Finlândia e Alemanha.

Notam diferenças no que diz respeito à valorização dos atributos sustentáveis dos vossos produtos de país para país? Alguma curiosidade que queiram partilhar? 

Quando a marca começou, a distribuição da marca por retalhistas era fundamental, pois possibilitou um crescimento sustentável da marca em termos de produção. Os nossos primeiros retalhistas foram na Bélgica, um país onde moda de autor e sustentável em 2017 já era um consumo generalizado, e normal. Atualmente vendemos em 22 retalhistas pela Europa, e temos apenas um em Portugal (para além de nós), o que revela a recetividade para este tipo de produtos em lojas convencionais, de rua, em Portugal, quando comparado com outros países Europeus.

 

 

 

Tendo o comparativo do mercado português com internacionais, sentem que o consumidor português valoriza mais, menos ou igual os produtos sustentáveis? 

Consideramos que os Portugueses colocam em primeiro lugar o facto de ser um produto feito em Portugal, com uma excelente qualidade. Ser sustentável é um plus, neste contexto. E mesmo quando procuram moda sustentável, querem que seja um produto feito em Portugal.

 

Vários estudos afirmam que os consumidores valorizam a sustentabilidade, contudo existe um gap entre o que pensam e o que fazem.

Simpatizam com estes produtos mas não os compram, muitas vezes por serem mais caros do que os convencionais. Sentem este facto na vossa indústria? Como combatem o obstáculo que o preço possa representar?

Realmente, é importante ter em conta o poder de compra de cada cidadão, nos diferentes países, e isso nota-se no average cart dos diferentes tipos de consumidores do nosso website. Também é importante considerar que a sociedade ocidental foi educada a consumir produtos que têm como objetivo ser descartados, e isso é transveral à moda. Se juntarmos estas duas questões, é fácil de perceber porque é existe este gap entre o que pensam e conversão de compra, principalmente nos países do Sul da Europa. 

A nossa estratégia passa mais uma vez pela transparência, e pela educação. Temos uma pergunta na nossa FAQ que é exatamente “Why are Näz pieces so expensive”, temos uma página de transparência onde fazemos o cost breakdown de uma peça, e estamos a trabalhar para que consigamos partilhar o impacto ambiental e social das nossas peças, bem como o life-cycle acessment dos nossos produtos. 

 

 

A sustentabilidade tem também o pilar social. De que forma o incluem na vossa estratégia?

O pilar social existe na marca desde a sua fundação. Inicialmente, muito baseado na nossa produção, localizada na Beira Interior, uma zona muito demarcada pelas desigualdades sociais, quando comparadas a outras regiões. O nosso parceiro de reciclados, inicialmente apenas produzia para estofagem, e nós trouxemos uma nova forma de escoar o produto deles, levando a uma valorização da zona, e da indústria, por consequência. Grande parte dos nossos parceiros são pequenas empresas familiares com um impacto enorme na região onde operam. Em Loriga, onde são confecionadas as nossas malhas de lã, os nossos parceiros da MPL são responsáveis por 38 trabalhadores, ou seja, 38 famílias. Numa região com 1053 habitantes e uma média de agregado familiar de quatro pessoas, esta fábrica impacta, ainda que indiretamente, quase 15% do total da população desta região.

Em 2020, e graças ao aumento de vendas e lucro que temos verificado, sentimos a necessidade de alargar os nossos esforços na esfera social, e desenvolvemos duas parcerias. Doamos mais de 100 peças de roupa de coleções antigas à associação Citador de Sonhos, e estamos com uma campanha onde 10% de todas as vendas dos nossos acessórios revertem para o Just a Change, cuja missão é reabilitar casas de pessoas em situação de pobreza habitacional.

 

Qual consideram ser o papel da moda num futuro mais sustentável? 

A moda vai sempre ter um papel fundamental na nossa vida em sociedade, e no futuro, para além de continuar a ser um integrador social, terá um papel de harmonização entre a esfera social e a esfera ambiental, através de tecnologias que permitem utilizar fontes mais sustentáveis na produção das peças, quer ao nível da matéria prima, com novas formas de utilização de fibras, e até novas fibras, quer ao nível de utilização de água e energia, mas também no fim de vida de cada peça de moda, ao criar tecnologias e serviços que permitem cada vez mais a reciclagem e tratamento das mesmas de forma eficiente e sustentável.

 

 

Sentiram o impacto da pandemia no vosso negócio? Se sim, sentem que pelo aumento das compras online ou por uma maior consciência ambiental dos consumidores? 

A pandemia trouxe inicialmente uma grande incerteza, principalmente ao nível das nossas lojas. Quando o estado de emergência se generalizou na Europa, estávamos prestes a entregar a coleção de Verão. Felizmente, grande parte dos nossos parceiros prosseguiram com as encomendas, o que nos trouxe algum alívio financeiro.

Em relação ao online, foi uma excelente surpresa. Desde o início do ano que estávamos a trabalhar numa nova imagem para o nosso website, e quando a pandemia rebentou, as nossas vendas online começaram a rebentar também, talvez devido a um mix entre o facto de os consumidores terem mais rendimento disponível por estarem em casa, e por uma maior consciência ambiental, mas definitivamente ligado a uma estratégia online que já estava muito bem definida antes da pandemia, e que não desistimos dela mesmo no momento económico difícil que estávamos a viver. 

Deixe-se encantar pela moda sustentável da Näz em: www.naz.pt

Marta Ferreira 

Marketing Specialist na Näz

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A Zouri é uma marca portuguesa de “eco-vegan footwear”, que utiliza plástico retirado do mar e materiais sustentáveis e ecológicos, para criar o seu calçado. Sendo, só por este propósito e missão, uma marca atrativa, mas que ainda consegue conciliar um design e estética muito apelativa. 

Criar Moda com Propósito e Sustentável

O conceito de calçado vegan já tem alguns anos em mercados mais maduros, mas apresenta ainda pouca expressão em Portugal. Só por isso, a Zouri poderia ser considerada uma honrosa excepção, mas a marca vai mais longe. 

 

A ZOURI gere um grupo de 600 voluntários de instituições portuguesas, ONGs e escolas para realizar limpeza da costa portuguesa. Tendo este ano recolhido uma tonelada de lixo das praias portuguesas.

 

 Um dos usos posteriores deste plástico é a própria produção do calçado da marca, que se completa com a utilização de produtos sustentáveis, como algodão orgânico, borracha natural e folhas de abacaxi.    

Desenvolvimento da economia Portuguesa, pessoa a pessoa  

A ZOURI produz todo o seu calçado na sua fábrica em Guimarães, enviando-o para diferentes países e continentes, sempre com um cunho português. 

Em cada encomenda, o consumidor recebe uma carta que enumera todos os materiais utilizados, as quantidades, a localização do plástico e o nome da pessoa que produziu o sneaker. Eleva Portugal, as suas gentes e causas. Assim, vale a pena, porque ainda por cima são bonitos 😉    

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