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O que alguns consideram “lixo”, outros consideram “luxo”.  No meio de retalhos de tecidos e botões antigos nasceu a Daniela Ponto Final. Esta marca portuguesa dá uma nova vida à matéria-prima que já existe, produzindo peças únicas e cheias de personalidade.

Daniela Duarte contou-nos a sua paixão por transformar materiais antigos em peças jovens e atrativas nos dias de hoje. A oferta da indústria da moda não a satisfazia, e por isso criou a Daniela Ponto Final para que quem usa as suas peças nunca se sinta “mais um(a)”.

A Daniela Ponto Final nasceu em 2010, numa altura em que a sustentabilidade não tinha o peso que hoje tem na indústria da moda. De onde veio a ideia para esta marca que desde o início assumiu um compromisso sustentável?

Na verdade, a marca surgiu como uma necessidade pessoal de dar resposta às minhas expectativas relativamente ao vestuário e enquanto consumidora de moda. Desde muito pequenina que vestia (e ainda visto!) peças de roupa feitas pela minha avó Fernanda, cresci no meio dos “trapos” e dos sapatos nos negócios da família e, talvez, de alguma forma, esse contexto tenha influenciado o meu percurso. Não me identificava com a oferta da indústria, nunca quis ser “mais uma” na forma como expressava através do guarda-roupa e, como tal, quando comecei com a daniela ponto final também não faria sentido traçar o rumo de outra forma.

Comecei por produzir peças para mim com a ajuda preciosa da minha avó e com restos de tecidos das clientes dela, ou com pequenos retalhos comprados em comércio local e, na verdade, não tendo o compromisso ético e moral da Sustentabilidade na Moda assumido, todo o processo e caminho tem sido esse desde o começo; fornecedores locais, preferência e valorização da produção local (costureiras em casa e/ou pequenas confeções familiares), condições e remuneração do trabalho adequados, eu própria vou para a máquina de costura, produções de pequena escala, peças únicas, personalização dos produtos como serviço prestado aos clientes…atualmente leciono Sustentabilidade na Moda na ESART-IPCB e há medida que preparava as aulas teóricas, dava comigo a reconhecer e validar muitas das opções que fui tomando e acredito serem mais corretas nesta área no que diz respeito ao meu trabalho.

DPF retalhos de tecidos

“O que fazer com o que já existe?”: esta questão retrata um dos desafios da sustentabilidade, e um tema importante para a Daniela Ponto Final. Na prática, de que forma esta preocupação esta presente na marca?

Pessoalmente, sou fã do “antigamente”, adoro visitar o armário da minha avó, tenho imensas saudades das histórias que o meu avô Armando contava e que hoje, com Alzheimer, só as memórias de infância me permitem reconfortar o coração de alguma forma, adoro visitar feiras de antiguidades, a própria imagética que crio quando estou em contacto com objetos, música, as páginas amarelas e dedicatórias nos livros em segunda mão, tudo isso é material para me fazer viajar para outros tempos que não forma os meus. É inacreditável a quantidade de coisas que as pessoas adquirem e rapidamente as descartam! Costumo dizer que “Lixo é Luxo” e acredito mesmo nisso! É só prestarmos um bocadinho mais de atenção, permitirmos abrir e relaxar os sentidos e encontramos autênticos tesouros!

Há imensa matéria-prima, excedentes de confeções maiores, tecidos há anos em prateleiras nas retrosarias, botões e outros aviamentos, porque não trabalhar com o resto dos outros? Não posso ter um trabalho de autor por dar uso ao que já existe e não serve? Porquê? Quanto mais antigo, mais desafiante é para mim, até para o tornar atrativo novamente nos dias de hoje… além disso,  a “Moda” é um ciclo, tudo se repete e todos nós somos reflexo de várias influências.

 

A Daniela Ponto Final apresenta peças únicas que combinam diferentes cores e padrões. Qual é a fonte de inspiração para criar estes artigos?

Acho que já respondi um bocadinho sobre isto anteriormente, mas também é um processo muito intuitivo, de improviso…tenho sempre que ter os materiais comigo e só depois permito-me “ouvir” as suas histórias e propor-lhes de igual forma as “minhas histórias”. Desenho, planifico, mas a maior parte das vezes improviso sempre durante a modelagem e confeção e até no acabamento das peças…

 

Quais os principais desafios que encontrou enquanto designer de uma marca de slow fashion portuguesa?

Antes de mais, foi tentar perceber se faria sentido para mim , assumir o ritmo da indústria como hoje ela nos chega.

Uma peça de roupa, para mim, é muito mais do que um pedaço de pano para cobrir o corpo. É uma extensão da minha personalidade, crio laços emocionais com as peças e custa-me muito desfazer-me até da sobra do corte das peças que produzo na marca… Se, numa primeira fase ponderei essa abordagem no meu trabalho, seguir os calendários e coleções intermináveis, a verdade é que me estava a contrariar, para não falar do esforço e exaustão mental enormes e fisicamente também é bastante violento. Em 2016, tive uma experiência menos boa devido ao ritmo que seguia, poucas horas de sono, demasiadas horas de trabalho, acabei em fisioterapia facial, muito menos café e fui obrigada a abrandar. Percebi que se eu demorar mais um bocadinho, o mundo não vai parar de girar, o cliente daniela ponto final também não adquire uma peça porque “precisa”, mas porque pretende algo diferente, que vai para além de seguir tendências… Respeitar os ciclos dos processos, das pessoas, dos materiais, faz muito mais sentido para mim.

 

O que caracteriza o público-alvo da Daniela Ponto Final? Que tipo de peças mais procura?

Para mim é um bocadinho difícil responder a essa pergunta, porque é que tenho que excluir alguém? Prefiro o contrário, quem escolhe dizer “é daniela ponto final” fá-lo de forma consciente, sem receio de julgamentos por misturar grafismos ou “abusar” na paleta cromática…a vida já é tão aborrecida para acrescentar mais limites ou barreiras… é uma forma de estar, “é daniela, ponto final!”

As camisas das séries DANIELA’SHIRT são sem dúvida o produto com mais procura pelo público.

 

Que perceção ambiciona que as pessoas tenham quando usam uma peça da Daniela Ponto Final?

Eu gosto mesmo muito do que faço, vai para além do “amor à camisola” e, talvez por isso, me zangue muitas vezes com os trapos e sinta necessidade de parar e experimentar outras coisas… invariavelmente acabo sempre por trabalhar com tecidos e trabalhar muito com as mãos, valorizar cada vez mais as técnicas artesanais de produção e ornamentação do vestuário… tenho tido a sorte de estar envolvida em alguns projetos criativos e com uma forte componente social, a convite da Associação de Jovens Ecos Urbanos, São João da Madeira (e estou mesmo muito grata à Maria João Leite) pelos convites nos últimos anos, e que me tem permitido conhecer pessoas (a maior parte tornam-se avós adoptivas) e ouvir, ouvir o que têm para contar… ainda mais na situação pandémica em que vivemos, num isolamento forçado… faltam as emoções!… é importante para mim que as pessoas saibam que existe uma Daniela e que essa Daniela é todas as “Danielas” no processo. Existem pessoas que fazem acontecer, não são máquinas, leva tempo, mas esse tempo é dedicado a cada uma das pessoas que veste e diz “é daniela ponto final!”

Continuo a crer que ter amor naquilo e por aquilo que fazemos faz toda a diferença e não seria capaz de propor e assinar uma peça se não tiver sido feito com esse super ingrediente!

DPF retalhos de tecidos

Onde podemos encontrar a Daniela Ponto Final à venda?

daniela ponto final está disponível no website da marca, mas também nas redes sociais Facebook e Instagram (@adanielapontofinal) e com um retorno muito mais rápido do que no próprio site. Fisicamente, é possível encontrar daniela ponto final no Porto, na CRU-LOJA (Rua do Rosário 211), sob a curadoria das maravilhosas Virgínia França e Tânia Santos.

Daniela Duarte

Daniela Duarte, natural de São João da Madeira (1987), é Designer de Moda e fundadora da marca “Daniela Ponto Final” (2010).
Assistente Convidada pela Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, leccionou e lecciona unidades curriculares afectas à Licenciatura em Design de Moda e Têxtil, como Design de Moda, Sustentabilidade na Moda e Confecção.
Artista Convidada pela Associação de Jovens Ecos Urbanos na integração do “Projecto Habitus” com o grupo de trabalho da Oficina de Costura da Associação Mente em Movimento (2020/2021 – a decorrer); Residência Artística “Bordado A Matiz”, designer convidada pelo Centro Regional de Artesanato dos Açores (2019/2020).
Formadora e dinamizadora do Workshop “Tecelagem Improvisada” (2019); Artista Convidada pela Associação de Jovens Ecos Urbanos na integração do Projecto Labirinto Sensorial com as obras “Bolo de Laranja à Hora do Chá” (Bordado em Fotografia com o grupo de trabalho Clube de Tricôt do Orreiro) (2019) e “Never Ending – Knitting Ambience” (maxi tricôt com desperdício têxtil com o grupo de trabalho Clube de Tricôt do Orreiro) (2018).
Oradora convidada pela Universidade da Beira Interior no âmbito das Jornadas de Moda – Fashion Revolution Portugal (2018); Formadora convidada pela Sanjotec em co-promoção do workshop “Costura Criativa” no âmbito do programa internacional TCBL (2017).
Oradora convidada pela Universidade Aberta e Associação de Jovens Ecos Urbanos na tertúlia “Empreendedorismo no Feminino” (2016); Oradora convidada pela Fibrenamics em parceria com a Universidade do Minho na tertúlia “Do Conhecimento ao Mercado – Moda” (2015); Apresentação e venda ao público da marca “daniela ponto final” na Pop-Up Store WonderRoom ModaLisboa no período decorrente entre 2013 e 2018.

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Moda sustentável, criativa e atemporal. Estas são características que retratam a Marita Moreno. Uma marca portuguesa que tem feito um percurso a nível da sustentabilidade que tem-lhe conferido reconhecimento a nível internacional. Recentemente, recebeu um prémio atribuído pelo Global Footwear Awards e foi ainda nomeada para o Green Product Award, a única marca portuguesa candidata na categoria de moda.

À conversa com Marita Setas Ferro fomos conhecer um pouco do processo criativo destas peças únicas e exclusivas, e compreender como é percecionado o selo “Made in Portugal” a nível internacional.

Nasceu em 2008 mas foi em 2018 que a marca aprofundou o seu compromisso com a sustentabilidade. Como surgiu a Marita Moreno e o que originou a necessidade desta mudança posterior?

A Marita Moreno nasceu em 2008, como resposta à necessidade que senti em articular 3 áreas em que trabalhava e dava formação – escultura, design de moda e artesanato – em produtos de moda, neste caso vestuário. As peças de vestuário que desenvolvia e apresentava eram únicas ou series limitadas, com um design diferente e impactante, com intervenção artesanal têxtil, modeladas e confecionadas por mim – apercebi-me que a ligação e aplicação do artesanato têxtil português a produtos de moda não existia e com a riqueza que nós temos a nível dos têxteis em Portugal, seria muito interessante lançar uma marca com esses princípios – usar os têxteis tradicionais portugueses e as técnicas artesanais têxteis, em produtos de vestuário únicos e que este seria o futuro.

Em 2015 decidimos fazer um rebranding da marca e iniciar o trabalho com acessórios – sapatos e bolsas. Sempre defendemos princípios de sustentabilidade e éticos, responsabilidade social e transparência na produção e processo de desenvolvimento, ou seja, trabalhar com produção local e nacional, com a cultura e o património português, com artesãos e usar matérias primas endógenas e nacionais, são princípios que defendemos desde o início e por isso consideramos que nos preocupamos com a responsabilidade que tínhamos como marca, desde sempre.

Em 2017 percebemos e fomos também conhecendo uma serie de materiais mais sustentáveis que passamos a utilizar nas coleções a partir de 2018, como por exemplo a cortiça e o biocouro. E desde aí temos sempre vindo a aprofundar os nossos conhecimentos em materiais sustentáveis e a aplicar esses conhecimentos no design e produção das nossas peças.

moda sustentavel

Quais foram os desafios que encontraram quando decidiram ser uma marca mais amiga do ambiente?

Os desafios são sempre grandes e é preciso muita persistência e resiliência. Penso que existem dois grandes desafios: a montante sem duvida que são os novos materiais sustentáveis e ecológicos, a sua aplicação, a capacidade de criar novos produtos com materiais ainda muito recentes com todos os problemas inerentes, ou seja somo um laboratório onde fazemos parte do desenvolvimento de produtos inovadores com materiais inovadores; a jusante a capacidade que o mercado tem para entender a vantagem de comprar produtos sustentáveis e ecológicos, o porquê de serem produtos com um valor mais elevado – produção nacional, recursos endógenos, design inovador, linhas limitadas, materiais novos e sustentáveis – tudo isto são fatores que têm elevados custos que o mercado por vezes não compreende e ainda não esta disposto a pagar. Felizmente, neste último ano, sentimos um interesse enorme e um grande crescimento na vontade de aquisição de produtos sustentáveis, por isso estamos muito felizes sabendo que estamos a construir um caminho muito importante para uma maior sustentabilidade nacional e mundial!

 

Como é feita a escolha dos materiais e fornecedores? Que aspetos são mais valorizados ou mesmo imprescindíveis?

A escolha dos materiais é feita por mim – vou tomando conhecimento dos materiais que aparecem em feiras técnicas como a Mod’tissimo, da Selectiva Moda e estou inscrita em várias plataformas sustentáveis e de novos materiais, por isso fazemos uma investigação diária do que se vai fazendo de novo na área do sustentável, a nível nacional e internacional. Os materiais têm que ser sustentáveis – de origem natural ou reciclada, feitos em fábricas legais que cumpram com os critérios de legislação laboral corretos, com certificação e que estejam classificados positivamente em plataformas de avaliação sustentável. Os fornecedores são também escolhidos pelos seus materiais, visitamos as instalações e percebemos se são ou não adequados para trabalhar connosco. Privilegiamos os fornecedores nacionais, mas caso existam materiais que não são produzidos em Portugal devido à matéria-prima ser endógena de países distantes – pinatex, malai, bananatex, desserto – vamos procurá-los onde esses materiais são feitos da forma mais sustentável, procurando todos as informações disponíveis e solicitando envio de certificações e imagens ao vivo.

Para nós é fundamental percebermos quais as matérias-primas usadas na fabricação dos materiais, como foram obtidas, onde, por quem são feitos e de que forma. Na produção só trabalhamos com artesãos com carta de artesão e certificados e com fábricas que cumpram com a regulamentação de trabalho e de ambiente. Devido à forma cuidadosa como trabalhamos, obtivemos a certificação da PETA na nossa linha vegan, sendo também um fator importante na credibilidade da marca.

 

Os produtos da Marita Moreno apresentam um design atemporal, pensados para durar e não seguir tendências. Onde encontra a inspiração para criar novos artigos?

Preocupo-me muito com o processo criativo, com a introdução da cultura e do património português no design dos produtos, com os materiais que usamos e com a durabilidade dos nossos produtos. Com todos estes aspetos sempre presentes, a inspiração é o aspeto que faz a diferença de uma coleção para outra e que exterioriza o meu pensamento criativo e o cruzamento das áreas que eu gosto – design, arte, cultura, artesanato, arquitetura, literatura… A inspiração encontro-a nos livros que leio, nos filmes ou series que veja, em personagens marcantes, em animais do mar, em esculturas e pinturas que são marcantes para mim, em texturas da natureza… tudo para mim podem ser inspirações. A forma como os meus olhos vêm e o meu cérebro (treinado duma forma criativa) regista, interpreta e conjuga todas estas informações cruzando com paletas de cores, formas e volumes é que faz a diferença no design dos nossos produtos e por isso a diferença que temos de outras marcas – todos os criativos vêm de maneira de diferente e pensam de forma diferente e por isso as marcas têm uma identidade tão própria como as dos seus criativos.

sapato nomeado moda sustentavel

O modelo de sapato Dali Azores está nomeado para o prémio internacional de design sustentável Green Product Award 2021. Sendo a única marca portuguesa candidata na categoria de moda, o que significa esta nomeação para a Marita Moreno?

A nomeação que a marca teve para este prémio é muitíssimo importante – o Green Product Award é um dos prémios internacionais mais importantes na área da sustentabilidade e conseguir que um sapato nosso seja nomeado para finalista numa categoria de moda significa que a marca é reconhecida internacionalmente como uma das melhores na área da sustentabilidade. Significa também que estamos a fazer um excelente percurso e trabalho na que respeita à sustentabilidade e que os resultados estão a ser reconhecidos internacionalmente.

Aproveitamos para referir que nos foi atribuído no dia 10 de Abril, pelo Global Footwear Awards, na categoria Profissional, o prémio Ethical Manufacturing/Sustainable Manufacturing Process: Silver in Sustainable manufacturing process, Bronze in Mules, Bronze in Supporting local communities footwear business, Bronze in Bio-fabricated materials, Bronze in Fair wage footwear business – para nós foi mais um reconhecimento internacional de grande importância, dado que o Global Footwear Awards oferece reconhecimento em todas as categorias de calçados, da Moda ao Desporto, e em todas as fases de desenvolvimento, do design ao processo de fabricação e homenageia os melhores do setor, abordando criatividade, inovação, sustentabilidade e impacto social. O painel do júri é composto por profissionais líderes da indústria vindos da indústria de calçado, imprensa, retalhistas, instituições e influenciadores, fornecendo uma perspetiva geral da indústria para a seleção do melhor design, incluindo profissionais da Puma, Nike, Adidas, Vera Wang, Prada, Vogue Italia, Royal College of Art, assim como a Diretora do Museu do Calçado, em São João da Madeira.

 

Qual o perfil dos clientes da Marita Moreno? Como o caracterizam?

Temos 2 coleções – Homem e Senhora – a maior incidência é na coleção feminina, mais diversa – temos as linhas limitadas e as linhas não limitadas, enquanto no homem só temos as linhas limitadas. O nosso mercado divide-se cerca de 80% a 85% senhora e o restante homem. E temos clientes desde jovens em idade adulta a senhoras com quase 80 anos, o que é ótimo, pois a nossa cliente gosta de design e objetos diferentes, peças numeradas e únicas, confortáveis, com um design contemporâneo e distinto; o nosso cliente homem gosta de com qualidade, peças numeradas, com um design que se diferencie. Temos consumidores espalhados por todo o país e também com excelente reação em Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, EUA e Austrália.

Marita Moda Sustentável

Sente que a maioria dos clientes chegam por serem uma marca sustentável, com um design exclusivo ou coleções limitadas?

Penso que a combinação de sermos uma marca sustentável com um design exclusivo é a fórmula certa para conseguirmos ter sucesso com os nossos produtos. A nível de consumidor final, sentimos que desde o início de 2020 que a sustentabilidade da marca é um fator preponderante na escolha dos nossos produtos, a escolha dos retalhistas recai mais no design e na qualidade dos nossos produtos. Sentimos também que a forma como estamos presentes nas redes sociais é fundamental para que os consumidores e os retalhistas percebam a consistência nos princípios que defendemos e que temos mantido na marca.

 

A Marita Moreno é uma marca portuguesa, mas também para outros países dentro e fora da Europa. Sente que os artigos “Made in Portugal” têm um peso relevante a nível internacional?

Sem dúvida! Quando falamos da qualidade de produção do sector do têxtil e do calçado na Europa, esta está intimamente ligada ao “Made in Portugal”. A qualidade do calçado feito em Portugal é excelente e somos procurados por todas as grandes marcas que pretendem produzir com qualidade. Acho que o próximo passo em que teremos todos de investir será o “Designed in Portugal” – apostar mais na capacidade criativa e na criação de marcas, pois temos produtos excecionais, com um design incrível que muitas vezes não conseguem ter a visibilidade e projeção a nível nacional e internacional que poderiam ter.

Foto Perfil MM

Marita Setas Ferro
Manager & Creative Director
Marita Setas Ferro é Manager & Creative Director da marca de moda portuguesa Marita Moreno. Sempre esteve envolvida na indústria da moda e outras áreas relacionadas: Professora de Design de Moda durante vários anos na Árvore Arts School no Porto, Portugal; e Escultora, com peças de arte relacionadas com a moda feminina. Além de liderar a marca, desenvolve ainda trabalhos e projetos na área de formação e ensino de moda.

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Duas amigas, com largos anos de experiência no mundo da moda, decidem começar a sua marca em plena pandemia.

O que as diferencia? Usam restos de fios das grandes marcas, para criar camisolas feitas por tricoteiras em Portugal. Lê tudo na entrevista.

 

Quem é e como surgiu a Thinking G? 

Thinking G foi criado por duas amigas, daí a confiança e suporte ser o núcleo da companhia.

Muitos de nós, durante a pandemia, tivemos mais tempo para refletir sobre as metas da nossa vida e repensar os nossos valores. Nós tivemos uma ideia de criar uma marca comercial de moda, contudo sabíamos desde o princípio que não será só mais uma peça de roupa no mercado da moda.

Nós acreditamos que tudo que criamos deve ter um significado. A principal e primeira ideia estava relacionada à produção sustentável. Ambas trabalhávamos na indústria da moda, por isso sabíamos que usualmente as marcas não utilizam os seus tecidos ou os seus fios de lã até ao fim, existem sempre sobras. Depois de encontrarmos os parceiros, a ideia foi completada e a Thinking G nasceu na forma com agora a vemos.

 

moda com restos de fios

 

Alguém que veja pela primeira vez a Thinking G, que percepção ambicionam que tenha imediatamente? 

Para aqueles que vêm a peça de Thinking G pela primeira vez, nós gostaríamos que olhassem além.

Queremos que as pessoas vejam o produto de alta qualidade e todo o trabalho para de trás dele. Nós gostaríamos que esta peça faça as pessoas perceberem que uma camisola de fio de lã natural pode substituir 4 camisolas de poliéster de produção de massa, e que uma peça manualmente feita não quer obrigatoriamente dizer que está fora de moda.

Claro que queremos que as pessoas compreendam que uma certa atitude consumista não prejudica, mas ao contrário, pode ajudar a planeta. Todavia Thinking G é acima de tudo um lindo produto de moda, por isso que tal o simples “wow” com primeira impressão?

 

A Thinking G assume uma missão de desperdício zero na produção de roupa. Podem explicar-nos como o fazem?

THINKING G – a marca que dá às sobras a atenção que elas merecem. Acreditamos que o nosso conceito principal merece atenção e deveria tornar-se numa prática amplamente usada a nível mundial.

Nós usamos as sobras dos fios quais compramos das marcas de luxo ou de fábricas que fabricam para tais. Infelizmente, 1-2 kg das sobras do fio podem ficar armazenadas para sempre, mas nós ficamos felizes de lhes poder dar uma segunda vida.

Após ter comprado os fios, os mesmos têm de ser limpos e dobrados para ficarem prontos para as nossas artesãos.

Desperdício zero na produção mundial pode parecer uma utopia por agora, a qual não nos impede de dar os primeiros passos para o realizar. 

Tanto as marcas como as fábricas seguem a ideia de redução de desperdício ou simplesmente querem livrar-se das suas sobras, geralmente ficam felizes em colaborar.

 

moda feita por tricoteiras com restos - thinking g

 

Em relação à produção, que acreditamos possa ter especificidades, como a asseguram?  

Nós desenhamos os modelos em Paris, mas não os fazemos. Trabalhamos com senhoras tricoteiras, que fazem as malhas para nós cá em Portugal. 

Trabalhamos exclusivamente com o fio natural: alpaca, caxemira, merino, lã.

O fio comprado é indicado para trabalhar em máquinas e daí ser demasiado fino. Então tem de ser dobrado para tricotar à mão (pode se fazer manualmente ou com a máquina especial).

Depois passamos o fio dobrado à artesã, que normalmente demora de 20 a 30 horas para fazer uma peça.

 

Que impacto tem para a cliente a utilização de sobras de fio na produção das peças de roupa, no conforto e durabilidade?

Os materiais que usamos para fabricar as nossas roupas são fundamentais para honrar o valor da nossa marca. Nós colaboramos com marcas de luxo e fabricantes de roupa ao comprar os restantes fios de lã, os quais eles não planeiam usar para as próximas coleções.

O montante que compramos varia de 800g até 5 quilos por fio, que pode ser considerado uma sobra à escala de uma grande produção, mas é um puro tesouro para nós e para o cliente. Por vezes é suficiente para criar só um modelo que significa que podes ser a proprietária de uma peça que é única. 

 

thinking g - moda com restos

Como caracterizam as vossas peças, para que tipo de mulher são?  

A mulher Thinking G é uma mulher atenciosa! A mulher que aprecia qualidade sem sacrificar o estilo.

Ao mesmo tempo ela não corre atrás das tendências da moda, mas prefere ser a possuidora da uma roupa que vai durar através do tempo. Ela valoriza a exclusividade, pois cada peça Thinking G manufaturada não pode ser copiada.

 

De que forma a parte social está incorporada na Thinking G? 

Nós tentamos não só ser ambientalistas, mas também socialmente responsáveis ao apoiar a comunidade das mulheres de várias maneiras.

Em conjunto com a nossa equipa de tricoteiras, nós produzimos roupas em Portugal. Leva horas de trabalho de precisão e dedicação para criar uma peça manualmente tricotada. Pode ser o trabalho a tempo inteiro para algumas tricoteiras ou o tempo parcial para outras, nós ficamos felizes por encorajar o seu trabalho ao pagar-lhes um valor justo.  

Também cooperamos com a “Woman Foundation”, que apoia mulheres que sofrem de violência doméstica, ao providenciar com suporte jurídico e financeiro. Nós por vezes queremos ajudar, mas não sabemos como fazê-lo. As nossas clientes podem encontrar informação mais detalhada e contatos no nosso website

 

São uma marca que nasceu em plena pandemia, que todos os estudos indicam esteja a marcar mudanças no tipo de consumo das pessoas. Como imaginam o futuro da moda e quais as expectativas da Thinking G? 

O mundo da moda está a mudar drasticamente neste momento. Apesar de cada marca estar a proclamar a sustentabilidade, por vezes essas declarações são falsas, mas também existem muitas marcas que realmente mudam a atitude delas e lançam iniciativas ambientalmente e socialmente responsáveis.

Há cada vez mais plataformas para marcas sustentáveis, mais bloggers a apoiar a comunidade, e por último, mas não menos importante – nós começamos a ter clientes que se preocupam com estes ideais. Estes clientes estão dispostos a comprar roupa feita eticamente, concluindo que não é uma questão de grande mudança na sua atitude, mas somente uma simples escolha de roupa que ao mesmo tempo se torna numa entrada para algo maior. Como uma passagem de “Thinking Good” para “Thinking Global”.

Thinking G nunca será enorme e não é esse o nosso objetivo. Nós sonhamos com uma produção com o mínimo de desperdício e sobre uma comunidade das mulheres que partilham os nossos valores.

Nós usamos o hashtag que nos ajuda a identifica-las #spottinggthinkers e estamos felizes ao ver esta comunidade a crescer. 

Viktoria and Liliia

Fundadoras da Thinking G

Duas personalidades diferentes com caminhos muito parecidos. Ambas tiraram o Master degree em tradução em Kyiv, Ucrânia, onde aprenderam varias línguas estrangeiras e ambas continuaram os estudos e tiraram o outro degree em Marketing das Industrias de Luxo em Paris, França. As graduadas continuaram os seus estudos ao trabalharem em retalho e venda por grosso para grandes marcas de moda e também para independentes desenhadores de moda contemporâneas.

Em março 2020 estava mais do que na altura de dar o passo seguinte na carreira para ambas, para ver o que pode nascer de uma longa e duradora amizade – e já em Novembro 2020 a marca Thinking G foi lançada.

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As marcas fast fashion têm adotado a introdução de linhas de moda sustentáveis. Fomos falar com a Maria Beatriz Costa, que realizou uma tese sobre o tema, para compreender melhor este fenómeno.

 

 

Em que consiste a fast fashion?

 

O conceito de fast fashion surgiu depois de 1980, quando a indústria da moda começou a ser moldada pela necessidade constante do consumidor de adaptação às tendências. Neste sentido, as empresas começaram a adaptar os seus processos de produção, através da redução do ciclo de vida dos seus produtos para responder com mais eficiência e rapidez às necessidades de moda do consumidor.

Como resultado, surgiu o modelo de fast fashion que tem como foco o crescimento económico e caracteriza-se pela oferta de artigos de baixo preço dentro das últimas tendências de moda através da otimização dos processos necessários para trazer os produtos ao consumidor final.

Neste seguimento, a Zara e a H&M surgem como representantes deste modelo. Estas empresas conseguiram tirar partido das suas cadeias de fornecimento flexíveis, alterando com frequência os seus inventários, de modo a adotarem uma resposta mais rápida às tendências. A título de exemplo, a Zara produz mais de 20 coleções todos os anos.

 

As marcas não podem continuar apenas focadas em terem um bom desempenho económico e os consumidores devem ser mais conscientes, não só nas compras que fazem, como também nas ações que tomam

 

Há uma evolução na indústria da moda no que diz respeito à sustentabilidade?

 

No que diz respeito à sustentabilidade, a indústria da moda, particularmente as marcas de fast fashion, têm-se focado principalmente na sustentabilidade económica, desconsiderando os impactos negativos no ambiente e sociedade como a emissão de gases de efeito estufa e consequentes alterações climáticas, a poluição da água e solos e a existência de sweatshops onde as condições de trabalho são bastante precárias.

Contudo, nos últimos anos, sendo cada vez mais evidentes os impactos negativos desta indústria, houve uma mudança na indústria da moda, tendo sido colocado uma maior ênfase na sustentabilidade ambiental e social. Particularmente, surgiram novos modelos, como o slow fashion, que se focam numa abordagem holística na implementação da sustentabilidade no ciclo de vida dos produtos.

Para além disso, foram criadas várias campanhas globais de sustentabilidade, como o 2020 Circular Fashion System Committment, com o objetivo de incentivar as empresas a adotarem práticas mais sustentáveis e foram desenvolvidas várias ferramentas com o propósito de medir o impacto ambiental e/ou social das empresas pertencentes a esta indústria.

Em relação às marcas de fast fashion, grande parte começou a adotar iniciativas sustentáveis com o objetivo de começar a integrar o conceito de sustentabilidade e, ao mesmo tempo, melhorar a sua imagem face às críticas recebidas, sendo que uma das estratégias escolhidas foi a introdução de linha sustentáveis.

 

Fez uma dissertação sobre o desenvolvimento linhas sustentáveis. O que a motivou a fazer estudo?

 

Eu sempre soube que queria fazer uma dissertação dentro do tema da sustentabilidade, uma vez que é um tema que me interessa bastante. As marcas não podem continuar apenas focadas em terem um bom desempenho económico e os consumidores devem ser mais conscientes, não só nas compras que fazem, como também nas ações que tomam.

Dito isto, penso que a sustentabilidade deve tomar um papel cada vez mais importante nas nossas vidas se queremos preservar o nosso planeta.

Escolhi estudar linhas sustentáveis de marcas de fast fashion por múltiplas razões.

  • Em primeiro lugar, porque existe uma escassez de estudos semelhantes.
  • Para além disso, como a sustentabilidade e o fast fashion são muitas vezes percecionados como polos opostos, achei interessante estudar este tema e ganhar uma maior compreensão das perceções que os consumidores possuem em relação a estas linhas.
  • Adicionalmente, escolhi este tópico pois considero que embora a introdução de linhas sustentáveis não seja uma solução completa face aos problemas na indústria da moda, poderá representar um passo na implementação do conceito de sustentabilidade no modelo de fast fashion e, por conseguinte, influenciar os consumidores de moda a adotarem comportamentos mais sustentáveis.

 

 

linhas de moda sustentáveis

 

Dê-nos um exemplo de uma marca que tenha desenvolvido uma linha sustentável.

Em que consiste essa linha? O que a diferencia da roupa convencional?

 

O número de marcas de fast fashion com linhas sustentáveis tem vindo a aumentar nos últimos anos. A Zara, por exemplo, lançou, em 2015, uma linha sustentável denominada Join Life com o objetivo de reforçar as atitudes responsáveis do grupo Inditex, sendo depois expandida para outras marcas do grupo.

O que diferencia esta linha dos produtos convencionais são os vários requisitos que a linha deve cumprir, tanto ao nível ambiental como social. Estes requisitos seguem o índice Higg Index, desenvolvido pela Sustainable Apparel Coalition, que tem como objetivo medir o impacto ambiental e social das empresas de têxteis.

Além das auditorias ambientais, que têm como propósito verificar se as fábricas que consomem mais água e energia na produção e manutenção de têxteis cumprem os requisitos ambientais e as auditorias sociais que têm como objetivo garantir o respeito pelos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais do Trabalho, os produtos desta linha utilizam matérias-primas e/ou tecnologias de produção que visam minimizar o impacto ambiental.

 

Na sua opinião, os consumidores valorizam a sustentabilidade quando compram artigos de moda? Há uma evolução no seu comportamento?

 

Na minha opinião, embora haja uma consciência e preocupação crescente com os impactos negativos da indústria da moda, o número de consumidores que procura e compra artigos de moda sustentáveis ainda é bastante reduzido.

Segundo os resultados do meu estudo, os consumidores demonstraram ter perceções pouco favoráveis em relação à marca de fast fashion, mas atitudes favoráveis em relação à linha sustentável.

Ou seja, o nível de sustentabilidade da marca de fast fashion não foi um fator determinante na avaliação da linha sustentável. Além disso, o preço e estilo foram escolhidos como os fatores mais importantes na compra de artigos de moda e a sustentabilidade ambiental e social, os menos importantes.

Deste modo, as preocupações dos consumidores ainda não se traduzem na compra de artigos de moda sustentáveis e a sustentabilidade dos mesmos ainda é vista como um acréscimo.

Ou seja, os consumidores só compram artigos sustentáveis se estes atenderem às suas necessidades de moda e se o preço for semelhante aos produtos convencionais da marca.

 

A imagem de marca é um dos fatores mais importantes para o sucesso da linha sustentável

 

Que marcas se destacam, na sua opinião, positivamente nesta área? Porquê?

 

Uma marca que se destaca positivamente nesta área é definitivamente a H&M. A H&M foi uma das marcas de fast fashion pioneiras na integração da sustentabilidade no seu modelo de negócios e continua a ser pioneira na identificação e desenvolvimento de novas soluções que visam minimizar o seu impacto no ambiente e na sociedade.

Os esforços sustentáveis da marca não se limitam apenas à sua linha sustentável, denominada por Conscious, que contém os produtos que cumprem os requisitos mais elevados de sustentabilidade, mas também aos restantes produtos da marca, desde o design ao seu fornecimento, incluindo também o consumo dos produtos e o seu descarte através de um programa de reciclagem de artigos de moda, promovendo assim um modelo circular.

Segundo o CEO da marca, Karl-Joan Persson, o grande objetivo da H&M é que a moda seja sustentável e ser sustentável esteja na moda.

 

Que conselhos daria a uma marca de moda que queira vir a desenvolver linhas sustentáveis?

 

Tendo em consideração os resultados do meu estudo, a imagem de marca é um dos fatores mais importantes para o sucesso da linha sustentável.

Neste sentido, uma imagem de marca forte que transmita confiança aos consumidores, permite reduzir o risco na introdução de linhas sustentáveis, uma vez que aumenta a credibilidade da marca e, por conseguinte, a dos produtos sustentáveis.

Adicionalmente, a semelhança entre a imagem da linha sustentável e a imagem da marca pode facilitar a aceitação de produtos sustentáveis pelos consumidores.

Neste seguimento, as marcas devem desenhar produtos que envolvam práticas sustentáveis e, ao mesmo tempo, satisfaçam os desejos do seu consumidor, uma vez que as perceções de sustentabilidade da empresa não foram consideradas um fator relevante para o sucesso da linha sustentável.

Dado que os produtos sustentáveis não usufruem das economias de escala que os produtos convencionais possuem e as matérias-primas utilizadas são geralmente mais caras, o que dificulta a redução dos preços e a lucratividade dos mesmos, as marcas podem-se focar na semelhança entre o estilo das linhas sustentáveis e os seus produtos convencionais, uma vez que é um dos fatores mais valorizados na compra de artigos de moda.

 

Maria Beatriz Costa

Tem 23 anos e após ter concluído a licenciatura em Economia, decidiu tirar um mestrado em Marketing devido à sua grande paixão por esta área e tudo o que a mesma pode influenciar no desenvolvimento estratégico das empresas. Inicia agora o seu percurso profissional, ambicionando desenvolver as competências necessárias para se tornar uma profissional de marketing bem-sucedida.

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Slow fashion é um conceito relativamente conhecido, mas nem sempre bem compreendido. Fomos entrevistar a Inês Vaz, que acabou de realizar uma tese sobre Slow Fashion, para nos explicar o que é slow fashion e o que uma empresa da área da moda necessita incorporar para ser verdadeiramente sustentável. 

 

o que é slow fashion

 

O que é Slow fashion?

O slow-fashion (moda lenta) representa um movimento sustentável na indústria da moda. Este movimento junta alguns conceitos antecessores como moda sustentável e moda ética, utilizando o mesmo ideal do já conhecido método de cozinha lenta, o Slow-Food.

Neste sentido, não se reduz apenas à preocupação com questões ambientais, como o conceito de moda sustentável, nem apenas à consideração sobre questões sociais, como o conceito de moda ética, juntando também o desaceleramento do processo de produção e consumo destes artigos.

O objetivo é apostar na produção local e ética de artigos de moda com maior qualidade e durabilidade, de modo a promover a diminuição do seu consumo e descarte, onde no final da sua vida também possam ser reutilizados, reciclados ou reproduzidos. 

 

Pretende contrariar os impactos sociais e ambientais negativos desta indústria, como a exploração dos trabalhadores nas suas fábricas, intituladas, a depleção de recursos naturais, emissão de gases com efeito de estufa e poluição do ar e água

Como começou este “movimento”?

O movimento de Slow-Fashion surgiu em 2007 aliado a uma necessidade urgente de se mudar não só as estratégias e práticas das empresas presentes na indústria da moda como também alterar o pensamento e comportamento dos seus consumidores, no sentido de garantir a sustentabilidade do planeta.

Tal como o nome indica, este movimento pretende contrariar os impactos sociais e ambientais negativos desta indústria, como a exploração dos trabalhadores nas suas fábricas, intituladas de sweatshops (fábricas do suor), a depleção de recursos naturais, emissão de gases com efeito de estufa e poluição do ar e água, estando estes impactos associados principalmente ao modelo de moda rápida, conhecido como Fast-Fashion. Este último modelo promove também uma mudança frequente dos artigos nas lojas, como uma resposta rápida aos constantes novos desejos dos consumidores, sendo assim a indústria da moda identificada como uma das mais poluentes e menos éticas, com foco no crescimento económico e maximização da margem de lucro. 

 

slow fashion

 

Os consumidores estão a aderir a este conceito?

Em resultado dos desafios ambientais e sociais que o planeta enfrenta atualmente e que comprometem a sua sustentabilidade, um número crescente de consumidores encontra-se preocupado com estas questões e consequentemente a aderir a movimentos que garantem a satisfação das necessidades presentes sem comprometer as futuras, como é o caso do Slow Fashion. Assim, para além de se verificar uma mudança da mentalidade deste consumidor com a procura de qualidade em detrimento da quantidade, também se assiste a uma mudança comportamento, com a crescente procura de opções em segunda mão, aquisição de artigos de produção local e que garantem condições justas para os seus trabalhadores e valorização de materiais orgânicos e recicláveis. Para além disto, estes consumidores estão também a exercer uma pressão crescente sobre as empresas presentes nesta indústria, para que estas alterem as suas estratégias e práticas.

O que te motivou a fazer uma dissertação de mestrado sobre este tema?

Do ponto de vista pessoal, a sustentabilidade é um tema que me interessa bastante. Isto porque acredito que o futuro do planeta não está só nas mãos das grandes empresas e organizações, mas está também dependente de cada um de nós.

Em seguida, escolhi aplicar sobre a indústria da moda porque, como disse anteriormente, é uma das mais poluentes e menos éticas, onde as empresas Fast-Fashion têm sido as principais culpadas. É urgente mostrar o processo que está por trás dos artigos que vemos expostos nas lojas e quais são os seus impactos negativos para o planeta.

Para além disso, do ponto de vista empresarial, a sustentabilidade é uma das principais tendências do marketing. E o meu estudo, para além de pretender mostrar a urgência de mudarmos os nossos comportamentos como consumidores, tem também como principal objetivo demonstrar às empresas a urgência de alterarem as suas estratégias e práticas não só no sentido de contribuírem para o alcance das metas de sustentabilidade, mas também para sobreviverem nesta indústria cada vez mais competitiva.

 

É importante não confundir “linhas sustentáveis” com o real conceito de sustentabilidade, uma vez que a maioria destas empresas não garante um verdadeiro equilíbrio das dimensões ambiental, social e económica.

 

Quem é o consumidor orientado para o slow fashion? Como se caracteriza?

O consumidor orientado para o Slow Fashion mostra preocupação com questões ambientais e sociais na indústria da moda, atribuindo maior importância à maneira como os produtos são produzidos e preferindo técnicas artesanais, produção e comércio local em pequena escala.

Para além disso, tem preferência por desenhos mais simples e versáteis que não seguem tendências, escolhendo os artigos com base nas suas reais necessidades.  Estes consumidores sentem-se também mais atraídos por edições limitadas que lhes permitam uma maior capacidade de autoexpressão.

 

Algumas marcas de fast fashion estão a desenvolver linhas sustentáveis. Como interpreta esta tendência?

Algumas marcas de Fast-Fashion, no sentido de agradar a estes consumidores cada vez mais exigentes e preocupados, encontram-se a adotar práticas como o desenvolvimento de linhas “sustentáveis”. Contudo, é importante não confundir estas práticas com o real conceito de sustentabilidade, uma vez que a maioria destas empresas não garante um verdadeiro equilíbrio das dimensões ambiental, social e económica.

Isto acontece porque apesar de desenvolverem linhas com artigos compostos por materiais mais sustentáveis, o conceito de Fast-Fashion continua a focar-se na dimensão econômica, com a redução de custos e aumento de lucro, sem preocupação com os impactos sociais e ambientais negativos que possa advir dessa filosofia.

Para além disto, para que possam ser sustentáveis estes produtos têm também de garantir que em todas as fases do seu ciclo de vida – produção de recursos e matérias primas, extração, lavagem, tratamento, tingimento, tecelagem, montagem, transporte, distribuição, compra, uso e descarte – todos os impactos sociais e ambientais são minimizados, o que não acontece na maioria destas empresas. Estas práticas são assim entendidas como Greenwashing – onde o objetivo é passar uma imagem ambiental positiva perante a opinião pública, ocultando e desviando a atenção dos impactos negativos gerados pelas mesmas.

 

buy less

 

Que marcas de slow fashion são um bom exemplo, para ti, deste conceito?

O número de marcas de Slow Fashion tem aumentado bastante ao longo dos anos, com o exemplo das marcas portuguesas Siz e Miss Castelinhos Handmade, onde os artigos são feitos de fibras naturais e orgânicas e material reutilizado, em pequena escala, manualmente e localmente.

 

Quais as principais conclusões do teu estudo sobre Slow Fashion?

Com o meu estudo conclui-se que o grupo de consumidores com um médio a alto nível de orientação para o Slow Fashion tem uma dimensão significativa na amostra utilizada, sendo que esta dimensão representa um motivo de mudança das organizações no sentido de alcançar as metas de sustentabilidade e atender a este número elevado de consumidores.

Foi também possível verificar que são as mulheres com mais de 54 anos que possuem uma maior orientação para este movimento.

Para além disso, os consumidores deste grupo demonstram possuir valores ambientais, como proteção do meio ambiente e prevenção da poluição, valores altruístas, como paz no mundo e igualdade, crenças negativas associadas a horas excessivas de trabalho e trabalho infantil, e por fim, crenças negativas sobre questões ambientais na indústria da moda.

Por último, pode-se concluir que quanto maior a orientação do consumidor para o Slow Fashion maior a sua intenção em comprar estes produtos. Contudo, verifica-se um desfasamento entre as duas variáveis, sendo que uma orientação elevada nem sempre se pode traduzir em intenção de compra.

 

Com a pandemia, o que acreditas que vai mudar no mundo da moda? Os consumidores serão mais conscientes do que compram e a quem compra?

Uma das tendências que se tem verificado com a pandemia é a procura crescente por artigos de produção local, existindo assim uma maior preocupação em apoiar o comércio tradicional face ao grande consumo e a empresas de Fast-Fashion.

Para além desta questão, existe também uma maior consciência com o tipo de material utilizado nos artigos de moda, no sentido de uma maior preocupação com a saúde. O e-Commerce na indústria da moda é também uma tendência crescente, o que ao nível de sustentabilidade pode não se traduzir na melhor opção, uma vez que implica mais uma fase de transporte com consequentes impactos ambientais negativos.

Inês Vaz

Tem 24 anos e é uma apaixonada por Marketing, área que escolheu para realizar o seu mestrado. É também licenciada em Gestão e atualmente junta estas duas áreas profissionalmente, estando na função de Retail Marketing & ECommerce Assistant na Colgate-Palmolive.

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A Näz é uma marca de moda sustentável 100% portuguesa, que nos despertou de imediato o interesse, até pela sua forte presença em mercados internacionais . Contactámos a Marta Ferreira, marketing specialist da marca, para nos responder a algumas questões, relacionadas com a recetividade do consumidor português à moda sustentável, os pilares sustentáveis da Näz, o impacto da moda no futuro do planeta e da pandemia no consumo atual. Não percam, está tudo abaixo. 

 

A Näz nasceu da ambição de criar uma marca na área da moda, ou da vontade de criar um projeto sustentável? 

A Näz surgiu da ambição de criar uma marca de moda sustentável 100% portuguesa

Apresentam 3 grandes “forças” na área da Sustentabilidade:

  1. Social Integration,

  2. Democratic Design 

  3. Share Information.

Podem explicar melhor o que é cada uma delas e de que forma se incorporam no negócio? 

No que toca a social integration, a Näz tem grande parte da sua produção localizada na região da Beira Interior, que, apesar de ser um ponto de referência na industria têxtil, é, ao nível nacional, uma das áreas mais afetadas por desigualdades sociais, quer ao nível de acesso a serviços, quer ao poder de compra dos habitantes da região. Os nossos produtos são produzidos e criados em cooperação com os nossos parceiros, num processo de aprendizagem conjunto e contínuo, onde se pretende aliar técnicas e conhecimentos da industria, com metodologias alinhadas com a sustentabilidade.

Em relação a Democratic Design, todas as nossas peças são pensadas de forma a que tenhamos um menor range de tamanhos, mas que consigamos incluir um maior número de corpos diferentes nas nossas peças. Linhas minimalistas, e oversized, são as principais características das nossas peças. Ainda nesta linha de pensamento, uma parte da nossa coleção é feita em fibras prontas a tingir, permitindo que um certo tipo de material, como o linho em natural pronto a tingir, seja moldado a diferentes designs. 

Por fim, em Share Information, a Näz pretende tornar-se 100% no que toca à sua produção. No nosso website, temos uma área dedicada aos nossos parceiros, materiais, e transparência, onde exemplificamos o cost brakdown de uma peça. As redes sociais são um veículo de informação muito importante para nós, e aqui também concentramos a nossa comunicação na partilha de informação em torno dos nossos produtos e métodos de produção.

Estamos a trabalhar de forma a trazer aos nossos clientes e seguidores ainda mais transparência neste sentido e estamos a trabalhar para que, já no próximo ano, consigamos partilhar o impacto ambiental e social das nossas peças, bem como o life-cycle acessment dos nossos produtos. 

 

Uma marca que se pauta pela sustentabilidade analisa todo o ciclo de vida dos seus produtos, desde a busca de matérias, ao fabrico, transporte, experiência e descarte.

De que forma a Näz contempla este desígnio na sua proposta de valor?

No nosso website, é possível encontrar informações sobre o ciclo de produção das nossas peças, desde a escolha de materiais, até às fábricas envolvidas no processo. 

Estamos a trabalhar de forma a trazer aos nossos clientes e seguidores ainda mais transparência neste sentido e estamos a trabalhar para que, já no próximo ano, consigamos partilhar o impacto ambiental e social das nossas peças, bem como o life-cycle acessment dos nossos produtos. 

 

 

Qual tem sido a receptividade do consumidor? O que valorizam mais na vossa marca?

Desde que a marca surgiu, em 2017, sentimos uma maior adesão dos nossos consumidores, principalmente devido ao facto de as questões relacionadas com as alterações climáticas e o impacto da moda no ambiente começaram a ser mais discutidas. 

Os consumidores valorizam a qualidade das nossas peças, quer ao nível do design como materiais, o facto de ser um produto produzido na Europa, com uma produção transparente, e a nossa comunicação, que é voltada para um público jovem.

 

De que forma envolvem a comunidade na vossa marca? 

A nossa comunicação é muito orientada para o brand love, pelo que o nosso objetivo é criar uma experiência de 360º em torno da nossa marca. 

Trabalhamos sempre com pessoas que nos seguem nas nossas plataformas para as nossas sessões fotográficas, quer de estúdio, quer lifestyle. Isto permite não só trazer pessoas que à partida se identificam com a nossa marca, mas mostrar que trabalhamos com pessoas “reais”, no sentido em que não são modelos. O resultado é um conteúdo muito mais orgânico, e alinhado com o estilo e personalidade dos nossos clientes e seguidores.  

A nossa comunicação é muito pessoal, e próxima do consumidor. Tratamos o consumidor diretamente por Tu, e expomos nas nossas plataformas questões relacionadas com a sustentabilidade dos produtos, feedback dado por clientes. Temos uma secção no Instagram dedicada aos looks dos nossos clientes, e damos rewards aos nossos melhores compradores em cada coleção. Fazemos também giveaways dos nossos produtos nas redes sociais. 

Criamos parcerias com outros negócios e marcas alinhados com os nossos valores, quer para as nossas sessões, quer para integrarem as nossas encomendas online (com ofertas de produtos por exemplo), de forma a dar a conhecer à comunidade outras iniciativas.

 

Consideramos que os Portugueses colocam em primeiro lugar o facto de ser um produto feito em Portugal, com uma excelente qualidade. Ser sustentável é um plus.

 

 

A Näz está presente, além de Portugal, em vários países como a Bélgica, Finlândia e Alemanha.

Notam diferenças no que diz respeito à valorização dos atributos sustentáveis dos vossos produtos de país para país? Alguma curiosidade que queiram partilhar? 

Quando a marca começou, a distribuição da marca por retalhistas era fundamental, pois possibilitou um crescimento sustentável da marca em termos de produção. Os nossos primeiros retalhistas foram na Bélgica, um país onde moda de autor e sustentável em 2017 já era um consumo generalizado, e normal. Atualmente vendemos em 22 retalhistas pela Europa, e temos apenas um em Portugal (para além de nós), o que revela a recetividade para este tipo de produtos em lojas convencionais, de rua, em Portugal, quando comparado com outros países Europeus.

 

 

 

Tendo o comparativo do mercado português com internacionais, sentem que o consumidor português valoriza mais, menos ou igual os produtos sustentáveis? 

Consideramos que os Portugueses colocam em primeiro lugar o facto de ser um produto feito em Portugal, com uma excelente qualidade. Ser sustentável é um plus, neste contexto. E mesmo quando procuram moda sustentável, querem que seja um produto feito em Portugal.

 

Vários estudos afirmam que os consumidores valorizam a sustentabilidade, contudo existe um gap entre o que pensam e o que fazem.

Simpatizam com estes produtos mas não os compram, muitas vezes por serem mais caros do que os convencionais. Sentem este facto na vossa indústria? Como combatem o obstáculo que o preço possa representar?

Realmente, é importante ter em conta o poder de compra de cada cidadão, nos diferentes países, e isso nota-se no average cart dos diferentes tipos de consumidores do nosso website. Também é importante considerar que a sociedade ocidental foi educada a consumir produtos que têm como objetivo ser descartados, e isso é transveral à moda. Se juntarmos estas duas questões, é fácil de perceber porque é existe este gap entre o que pensam e conversão de compra, principalmente nos países do Sul da Europa. 

A nossa estratégia passa mais uma vez pela transparência, e pela educação. Temos uma pergunta na nossa FAQ que é exatamente “Why are Näz pieces so expensive”, temos uma página de transparência onde fazemos o cost breakdown de uma peça, e estamos a trabalhar para que consigamos partilhar o impacto ambiental e social das nossas peças, bem como o life-cycle acessment dos nossos produtos. 

 

 

A sustentabilidade tem também o pilar social. De que forma o incluem na vossa estratégia?

O pilar social existe na marca desde a sua fundação. Inicialmente, muito baseado na nossa produção, localizada na Beira Interior, uma zona muito demarcada pelas desigualdades sociais, quando comparadas a outras regiões. O nosso parceiro de reciclados, inicialmente apenas produzia para estofagem, e nós trouxemos uma nova forma de escoar o produto deles, levando a uma valorização da zona, e da indústria, por consequência. Grande parte dos nossos parceiros são pequenas empresas familiares com um impacto enorme na região onde operam. Em Loriga, onde são confecionadas as nossas malhas de lã, os nossos parceiros da MPL são responsáveis por 38 trabalhadores, ou seja, 38 famílias. Numa região com 1053 habitantes e uma média de agregado familiar de quatro pessoas, esta fábrica impacta, ainda que indiretamente, quase 15% do total da população desta região.

Em 2020, e graças ao aumento de vendas e lucro que temos verificado, sentimos a necessidade de alargar os nossos esforços na esfera social, e desenvolvemos duas parcerias. Doamos mais de 100 peças de roupa de coleções antigas à associação Citador de Sonhos, e estamos com uma campanha onde 10% de todas as vendas dos nossos acessórios revertem para o Just a Change, cuja missão é reabilitar casas de pessoas em situação de pobreza habitacional.

 

Qual consideram ser o papel da moda num futuro mais sustentável? 

A moda vai sempre ter um papel fundamental na nossa vida em sociedade, e no futuro, para além de continuar a ser um integrador social, terá um papel de harmonização entre a esfera social e a esfera ambiental, através de tecnologias que permitem utilizar fontes mais sustentáveis na produção das peças, quer ao nível da matéria prima, com novas formas de utilização de fibras, e até novas fibras, quer ao nível de utilização de água e energia, mas também no fim de vida de cada peça de moda, ao criar tecnologias e serviços que permitem cada vez mais a reciclagem e tratamento das mesmas de forma eficiente e sustentável.

 

 

Sentiram o impacto da pandemia no vosso negócio? Se sim, sentem que pelo aumento das compras online ou por uma maior consciência ambiental dos consumidores? 

A pandemia trouxe inicialmente uma grande incerteza, principalmente ao nível das nossas lojas. Quando o estado de emergência se generalizou na Europa, estávamos prestes a entregar a coleção de Verão. Felizmente, grande parte dos nossos parceiros prosseguiram com as encomendas, o que nos trouxe algum alívio financeiro.

Em relação ao online, foi uma excelente surpresa. Desde o início do ano que estávamos a trabalhar numa nova imagem para o nosso website, e quando a pandemia rebentou, as nossas vendas online começaram a rebentar também, talvez devido a um mix entre o facto de os consumidores terem mais rendimento disponível por estarem em casa, e por uma maior consciência ambiental, mas definitivamente ligado a uma estratégia online que já estava muito bem definida antes da pandemia, e que não desistimos dela mesmo no momento económico difícil que estávamos a viver. 

Deixe-se encantar pela moda sustentável da Näz em: www.naz.pt

Marta Ferreira 

Marketing Specialist na Näz

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