Casa Modesta: o Algarve e a sua história mostrados ao mundo, num projeto sustentável

por kalimero
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Alojamento, localizado em Olhão

Este é o nosso segredo: uma casa de família que se abre ao turismo, numa terra quase desconhecida, virada para o mar, no coração do Parque Natural da Ria Formosa, eleita uma das 7 Maravilhas de Portugal. Somos suspeitos se afirmarmos que da Casa Modesta se contempla o melhor despertar do Algarve… Daqui, assistimos à migração das aves, à prática dos mariscadores, à recolha do sal. E, todos os dias, nos espantamos com os pequenos milagres da natureza.

 

A Chegada

Fomos recebidos pelo Carlos Fernandes, um dos proprietários da Casa Modesta, que rapidamente nos demonstrou que o alojamento é modesto, mas somente de nome (de família). Sofisticação, história e natureza coabitam no espaço, inserido no Parque Natural da Ria Formosa, uma das Sete Maravilhas de Portugal, com uma vista irrepetível.

 

Na Casa Modesta sentimo-nos inspirados a mergulhar num Algarve diferente do que ficou mundialmente conhecido, que se resumia às praias.

 

Birdwatching, acompanhar mariscadores e ir a viveiros de ostras são apenas algumas das experiências disponíveis na Casa Modesta, onde se estende a preocupação de divulgar a história e cultura algarvia, mais especificamente do Sotavento e da Ria Formosa, ao uso dos produtos locais, quer nos materiais de construção quer nos alimentos cultivados e divulgados no espaço, através das refeições e workshops de cozinha algarvia. Contando sempre com o apoio direto e apaixonado da comunidade envolvente. Um exemplo a seguir, na vertente ambiental e social.

 

Casa Modesta, a história que conta e cria

A história da família e da própria Ria Formosa estão presentes logo à entrada, na sala onde se degustam pratos locais e se realizam workshops de gastronomia típica da Ria Formosa, através de fotos nas paredes, um forno antigo onde ainda se coze o pão ou uma cisterna convertida em garrafeira. No entanto, o que mais se destacou neste momento em que fomos recebidos foi o próprio Carlos Fernandes e a sua paixão pelo que nos contava. Poderia ter sido um privilégio de quem se dirigiu para fazer uma entrevista, mas rapidamente percebemos que não. Todos os hóspedes com que nos cruzámos trataram o Carlos, coproprietário, pelo nome próprio e trocaram breves palavras cúmplices, de quem foi recebido e segue acompanhado na estadia pelo próprio. E isto é o ambiente que se vive na Casa Modesta: familiar, cúmplice e sereno.

O tempo parece regido pelas marés, que o avô Joaquim Modesto de Brito, proprietário da casa na infância dos irmãos Carlos e Vânia, tão bem dominava. Ou não fosse um velho lobo do mar, que acolheu o trabalho e a família nesta casa, com a Ria Formosa a um palmo de olhar. Vista que ainda hoje cria um despertar único, que Vânia Fernandes, irmã do Carlos, tão bem soube explorar no projeto arquitetónico que deu origem à Casa Modesta. Os quartos são autênticas varandas sobre a ria, como o próprio Carlos nos refere: “A paisagem muda ao longo do dia, conforme as marés.” Oscila entre a predominância do azul na maré cheia e o amarelo dos sapais que formam o complexo lagunar da Ria Formosa na maré vazia.

 

 

Os materiais usados na recuperação da casa, onde o Carlos habitou até aos seus dezanove anos, foram todos locais, como barro de Santa Catarina, cal, cortiça e mesmo latão. Tendo as preocupações energéticas sido uma exigência logo na fase de concepção e obra, quando solicitaram e obtiveram a certificação energética A+, da Líder A. Recuperação de tradições locais, como a cabana de colmo, no centro do jardim, que relembra as habitações dos pescadores nas ilhas barreira da Ria Formosa, e que hoje permita uma leitura virada para a Ria, em harmonia com o ambiente, são alguns dos detalhes que fazem deste espaço único.

Questionado sobre o legado da Casa Modesta, Carlos Fernandes refere que se trata de uma casa de memórias de família, impossível de replicar noutro local, mesmo que o negócio corra cada vez melhor. E nós podemos constatar isso na paixão com que o Carlos nos contou que o seu avô, mariscador mas também construtor de barcos em madeira que pintava sempre de vermelho e amarelo, também desenhava. Os desenhos estão, inclusive, expostos na receção, com uma forte inspiração na ria, na faina e nas suas paisagens. O que nos permite mergulhar ainda mais na história da família e perceber porque motivo esta casa é irrepetível noutro local.

 

Existem características e históricas que fazem com que a Casa Modesta só possa existir aqui

 

Refere-nos Carlos, sem esconder o seu orgulho, paixão e respeito pelas tradições. Para isso, muito contribuem as experiências que envolvem a comunidade, como a experiência do mariscador – onde levam pessoas ao viveiro, ver a apanha da ameijoa, berbigão e ostras e como se cultiva o viveiro.

“Tratar de um viveiro é como tratar de uma horta e as pessoas ficam espantadíssimas. Temos que “plantar” as ostras para as “colhermos” depois. Não estamos a inventar experiências. Estamos a ir buscar experienciais reais que são ancestrais e trazem a autenticidade e vivencias locais”.

Outra das experiências são os workshops de gastronomia realizados por Sandra Patrão, chef e vizinha da Casa Modesta, que têm como objetivo não só dar a conhecer as iguarias locais como ensinar a fazê-las. Os pratos vão desde cataplana de marisco, ao litão, xarém, e ao famoso folar de camadas tão típico destas paragens por ocasião da Páscoa. Dos ingredientes destes e outros pratos fazem parte os produtos locais, como marisco, com destaque para os bivalves, como a ameijoa, peixe, laranjas ou amêndoas.

A Casa Modesta acaba por ser um ícone do Sotavento algarvio e que nos recorda que o Algarve tem mais para oferecer do que praia. Este local singular está em perfeita simbiose com a comunidade e dispõe ainda de uma ciclovia colada à ria, onde se experimenta e vive a natureza, respeitando-a e enaltecendo-a. Criando históricas e lembranças únicas, para quem a visita.

A Sustentabilidade integrada no Projeto

 

 

Vânia Fernandes, sócia e arquiteta responsável pelo projeto, conta com uma carreira ligada a projetos que têm uma forte vertente sustentável na sua génese, pelo que a ideia de incorporar a variável ambiental e sustentável num projeto tão pessoal esteve presente desde início, pensando cada detalhe. Um exemplo é a piscina, um antigo tanque, onde a água é tratada por pastilhas de hidrion, um sistema de ionização do cobre, que permite reutilizar a água para a rega das árvores de não fruto, o aproveitamento da luz natural algarvia para painéis solares que asseguram toda a eletricidade do alojamento e a reserva de um espaço para uma pequena horta biológica, onde apenas se plantam produtos locais, que são utilizados nas refeições do espaço. Além destes cuidados, também o plástico foi retirado do espaço, tendo sido estas preocupações reconhecidas internacionalmente, logo no ano de abertura, 2015, com um prémio do Condé Nast Johansen como melhor hotel ambiental. Somando a este prémio outros, como o Architizer, em que a Casa Modesta foi a escolha do júri para melhor hotel, no ano de 2017.

 

Os prémios ajudam a um maior reconhecimento internacional, que apoia na conquista de novos clientes, que cada vez mais se preocupam com a vertente sustentável do conceito na escolha do alojamento

 

Segundo o próprio Carlos, “os prémios ajudam a um maior reconhecimento internacional, que apoia na conquista de novos clientes”, que segundo nos conta o próprio “cada vez mais se preocupam com a vertente sustentável do conceito na escolha do alojamento, mas também com as experiências disponíveis, o que resulta numa cada vez menor sazonalidade e uma diversidade maior de turistas, como norte americanos, belgas, alemães e franceses”. Esta diversificação de públicos é, de resto, um dos grandes objetivos dos proprietários, e que se viu alavancado com o Coronavírus: levar a história do Algarve a cada vez mais pessoas, de diferentes regiões do globo, com a certeza que elas regressam. Temos tido essa prova, com famílias que já nos visitam há três anos seguidos.

Antes de abandonarmos o espaço – conscientes que um dia voltaremos, para um dos melhores despertares do Algarve -, tivemos oportunidade de falar sobre um reconhecimento que está logo à entrada, no portão. A certificação Green Key tem uma importância especial para o espaço, porque tratou-se de um processo de auditoria, que resultou nesta atribuição. Tudo foi avaliado, desde a capacidade de consciencializar para comportamentos mais sustentáveis, reduzir o impacto ambiental nas atividades comerciais até promover a redução e eficiência no consumo dos recursos naturais. Tendo a Casa Modesta passado em todos os pressupostos com distinção, neste reconhecimento mundial da responsabilidade da dinamarquesa Foundation for Environmental Education (FEE), que em Portugal é tutelado pela Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE).

Por tudo isto, não hesitamos em destacar a Casa Modesta como um exemplo, por demonstrar que a Sustentabilidade poderá não ser apenas um cuidado, mas sim uma fonte de rendimento.

As preocupações com o ambiente, mas também sociais de incluir a comunidade e tradições na vivência do espaço, resultaram num sucesso económico, que faz pensar em aumentar o espaço de alojamento, sem nunca colocar em causa o seu conceito e propósito.

Poderemos levar o nosso conceito a outros locais do Algarve e até do país, mas nunca replicando a Casa Modesta. Ela conta a história da nossa família e do local, não se adapta”, refere novamente Carlos Gonçalves na despedida. E isto, acrescentamos nós, é o que faz deste projeto um exemplo: autenticidade e respeito pelas tradições, natureza e comunidade.

Conheça este projeto único em: www.casamodesta.pt

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